Quando Getúlio Vargas queimou milhares de sacas de café, ele salvou os cafeicultores paulistas que anos antes tentaram com a Revolução Constitucionalista tirá-lo do poder, nessas fazendas habitavam caboclos e Imigrantes que trabalhavam em um regime de semi-escravidão. Justo nessa época, começava na Rádio Nacional de São Paulo as primeiras duplas caipiras, cantando e se destacando, essas duplas representavam o que de mais íntimo que o caipira do médio sul brasileiro era. Anos mais tarde em meados dos anos 50, muitas dessas duplas atingem o status de fenômeno de massa e consumo, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léu entre outros, a assimilação de outros ritmos e tendências internacionais na música caipira começa a se fazer presentes, as canções deixam de ter uma temática bucólica que visava situar o cidadão do Interior do mundo para temas românticos e voltados ao consumo. A semelhança de Tião Carreiro com John Wayne é um exemplo, o chapéu de vaqueiro americano toma o lugar do chapéu de palha, o lenço no pescoço e em músicas claras referências a marcas de revólver como “Gold cavalinho” e a crítica social cada vez mais defasada.

Nos anos 1970, ocorre a entrada da influência da música mexicana no Imaginário caipira nacional, Pedro Bento e Zé da Estrada, Milionário e José Rico entre outros representam essa estética, isso desencadeará em um pseudo texano representado pela dupla Chitãozinho e Xororó nos anos 80, assim como John Wayne está para Tião Carreiro, a banda americana The Bread está para Chitãozinho e Xororó, Leandro Leonardo, João Paulo e Daniel entre outros. Enquanto a música caipira com crítica social ficou com Pena Branca e Xavantinho e desencadeou em Milton Nascimento e o Clube da Esquina.

Nas abominações cognitivas da classe média, existe uma Ethos que pauta as temáticas do entretenimento sob o viés econômico, Odair José falava que iria tirar as empregadas daquele lugar, Leandro e Leonardo não deixariam de ser “um sonhador” e atualmente o sertanejo universitário se faz presente na Ethos Econômica da nova classe média brasileira, essa que usa polo e butina para dirigir seu HB20 pelas ruas do interior de São Paulo, que pelo imaginário quer voltar aos tempos de seus pais e avós.
O discurso do militarismo no Brasil levou pouco mais de 50 anos para se fazer radioativo novamente nas camadas mais conservadoras e populares do Brasil, assim como a cultura “da bala” que emerge no mesmo público-alvo, Tião Carreiro 50 anos depois. Quando se diz que o Agro salvou a economia brasileira, vale-se dizer também que o sertanejo universitário é trilha sonora da expansão agrícola rumo ao Norte do Brasil.
Muita gente diz que Bolsonaro foi eleito por um BBB, bala, boi e Bíblia, a Bíblia surge para pegar a base das populações brasileiras, de neopentecostais a católicos carismáticos, o boi e a bala são resultados da indústria cultural brasileira, essa que só toca top e converge tudo para uma cosmologia de um caipira americano, a ideia de um filme bang-bang onde “Por Um Punhado de Dólares” se domina uma cidade, onde o índio é inimigo e os vizinhos que falam espanhol são bandidos, não é curioso ver que Bolsonaro foi muito melhor nas urnas onde pegava Rádio Nacional de São Paulo, onde o ideal do campo e a busca por uma identidade se tornam fatores hegemônicos que devem ser engolidos a força pelo restante do Brasil.
Por isso também a esquerda perdeu, porque perdeu a base, e não consegue se comunicar com esse imaginário, não consegue se comunicar com pessoas que acham Luan Santana mais interessante do que Chico Buarque, que não consegue diferenciar o sertanejo universitário da música caipira e que principalmente acreditam que são os mantenedores da ordem econômica e social no Brasil.
Porém, a música caipira está no oposto disso, está no imaginário íntimo do êxodo rural, da luta pela terra, do descaso e do abandono, por isso, querer mirar para isso que grassa nas rádios, roupas e atitudes de uma parcela da população como um fenômeno caipira é esquecer que o fruto da desigualdade fez com que a injustiça prevalecesse no discurso e a banalização do horror fosse a pauta, pois nos grotões mais isolados do Brasil, inclusive aqui no “sul-maravilha” ainda vemos pessoas do campo que lutam pela justiça, pela terra e principalmente, nada tem haver com a breguice que tomou conta do imaginário desses sertanejos urbanos que querem fazer do Brasil um Texas subdesenvolvido.