Crônicas – Volume Um narra as desventuras dos primeiros anos de Bob Dylan em Nova York até meados dos anos 1980
Bob Dylan é um malandro tão antigo que é possível reverenciá-lo mais por este fator que pelo Nobel (foi contemplado em 2016), ou mesmo pela sua extensa, admirável e importantíssima obra. O cara desembarcou de trem (de carga) em Nova York em 1961, sob um frio de rachar o coco, apenas com um violão nas costas, praticamente sem grana, atrás de uma carreira como cantor folk. E assim como quem não quer nada, mudou a humanidade.
E não mudou assim como quem fabrica uma bomba ou encerra uma guerra, instala um novo poder. Quer dizer, mais ou menos. Havia uma revolução em curso. Bob Dylan removeu montanhas justamente naquilo que a humanidade mais demora a mudar: a mentalidade.
Alvo de fantasias de inúmeras almas, é quase impossível dizer onde termina a verdade sobre sua vida e onde começa o folclore. Pouquíssimas figuras artísticas do século 20 foram tão avidamente escrutinadas. Ao passo que permanece um absoluto mistério para tanta gente, próxima ou distante dele.
É preciso deixar claro que qualquer pessoa que venha a ler suas Crônicas – Volume Um (Planeta, 2005, depois 2016) em busca de informações sobre o cristianismo, judaísmo, o “sumiço”, o acidente de moto, reconciliação com Deus, etc., enfim todo mito em torno de Dylan, vai se decepcionar. Não é uma autobiografia, apesar de autobiográfico. O que se encontra em Crônicas é muito mais fascinante e revelador do que isso: o livro passa uma sensação de como realmente é ser Bob Dylan. Narrado pelo próprio.
Sem formalidade cronológica, Crônicas – Volume Um consiste de três autorretratos em fases cruciais da carreira de Dylan. A primeira o encontra recém-chegado a Nova York no início dos anos 1960. “Dylan estava à beira da descoberta, imbuído da sensação de que o destino ‘procurava por mim e a ninguém mais’”, escreveu Mick Brown sobre o Volume Um em 2004, para o Literary Review.
A segunda seção salta para o final da década, uma época em que Dylan estava lutando com o fardo de ser o porta-voz de uma geração. A terceira avança ainda mais, até meados dos anos 80 — quando Dylan vivia uma crise criativa, amenizada pela gravação do álbum Oh Mercy e o início do que desde então ficou conhecido como “a turnê sem fim”. De forma mais ampla: nascimento criativo, morte e renascimento.
A primeira parte, de Nova York, é totalmente cativante. Nela está Dylan passando o chapéu nos cafés e bares de Greenwich Village, dormindo em sofás de amigos, absorvendo experiências e influências como uma esponja: jazz, música clássica, literatura — os poetas românticos. É sobre aquela fase na qual o poeta está realmente “pegando fogo”. Cem anos após Rimbaud em Paris, aparece do outro lado do Atlântico este maluco, portando charme, fúria e violão.
O tom de Crônicas surpreende pela generosidade e especial gratidão para com aqueles que o ajudaram naqueles tempos de vacas magérrimas: amigos e conhecidos, artistas que o inspiraram — desde Roy Orbison até Robert Johnson, ainda Hank Williams, e obviamente Woody Guthrie, aquele do violão com a inscrição “this machine kills fascists” (esta máquina mata fascistas).
É como se fosse um relato pessoal de como o bardo aprendeu a entender do que é feito um grande artista. De como aprendeu a separar o joio do trigo, o que é verdadeiro do que é falsificado. É o poeta encontrando sua própria voz.
Crônicas avança para a fase das cobranças, acerca do que seu público esperava do “Bob Dylan ideal”. É o tema da segunda parte. Dylan “exilado” em Woodstock, nos arredores de NY, tentando absorver alguma felicidade familiar, com sua jovem família. Narra invasões de intrusos, visões de fantasmas, vagabundos que vêm encher o saco à sua porta, exigindo coisas estranhas, como que Dylan “pare de se esquivar de seus deveres”, na condição de “consciência de uma geração”. Eis uma missão ou papel que Dylan nunca buscou e não teve nenhum interesse em ser. “Eu tinha muito pouco em comum e sabia menos ainda sobre uma geração da qual eu deveria ser a voz”, relata em um trecho.
Seu desprezo pelo papel de messias é evidente. E os métodos que empregou para evitá-lo são hilários. Desde ir a Jerusalém, usar um gorro qualquer e ser confundido com um sionista, até espalhar um boato de que ele estava se matriculando na faculdade para estudar design. Ou aquela de que estava gravando um álbum inteiro baseado em contos de Tchekov, enquanto procurava a alquimia para criar um perfume que causaria reação a pessoas indiferentes e apáticas.
A parte final o encontra na segunda metade anos 1980, já na meia-idade, sem grande inspiração e temendo que uma lesão na mão pudesse encerrar sua carreira como músico. “Eu era o que eles chamavam lá do alto”, afirma sem medo de parecer pedante.
Há um encontro casual com um cantor desconhecido em um bar que o aponta para uma nova maneira de expressar seu próprio canto. Lembrando-se de uma técnica de guitarra que aprendeu com o músico de blues Lonnie Johnson, ele de repente encontra uma maneira de retrabalhar seu material e torná-lo novo novamente, sinalizando um renascimento criativo e o início do que se tornou a “turnê sem fim”. É fascinante como Dylan se mostra sempre atento aos sinais e às correntes que moldam seu destino, na condição clara de um artista que sempre confiou muito mais em seu instinto — eis aqui aquela malandragem referida.
Dylan escreve muito bem. Tem musculatura para tanto. Sua prosa é rica em metáforas e pode soar meio hipster, mas de admiração ao mesmo tempo. Recorda com detalhes muitos eventos, conversas e até mesmo paisagens mínimas como ruas, paredes e móveis. “Perto do sofá, um armário de madeira sustentado por colunas caneladas, próximo a uma mesa oval com gavetas arredondadas, uma cadeira como um carrinho de mão…”.
Há passagens de puro humor. Como de quando conhece sua namorada Suze Rotolo pela primeira vez e acaba se apaixonando: “o ar de repente se encheu de folhas de bananeira”. Ou sobre assuntos banais, corriqueiros, do noticiário: “gostei mais das notícias antigas. Todas as novas notícias eram ruins”.
O livro não é um documento de registro. Sua carreira, em partes muito significativas, desaparece um tanto, no meio das crônicas. Pode ser que o Volume Dois venha dar conta do que supostamente ficou de fora neste.
Como escreveu Mick Brown: “Dylan omite as coisas que você pensou que queria saber, mas conta muito mais sobre o que realmente importa do que você ousaria imaginar, sobre o funcionamento interno de sua mente e como sua arte foi golpeada e moldada pelos tempos”.
Dá pra dizer sem medo de errar que Crônicas – Volume Um fará o leitor voltar correndo aos álbuns de Bob Dylan. Para ouvir, traduzir, se (re)entender, e novamente se encher de perguntas e dúvidas.
Afinal, é Bob Dylan.
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Crônicas – Volume Um – Bob Dylan
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