O centenário de Nosferatu


Obra-prima do expressionismo, filme chega a um século de sua primeira exibição, realizada de forma ilegal, devido a problemas com direitos autorais

O romance de vampiros mais ilustre da história — Drácula, escrito e publicado pelo escocês Bram Stoker em 1897 — não poderia ter uma adaptação mais popular e revolucionária para o cinema, 25 anos após a publicação do livro. Esta foi Nosferatu (F.W. Murnau, 1922).

O cronista Joshua Klein, do Chicago Tribune, escreveu para o almanaque 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer (Sextante, 2007) que “a obra adaptada e a mídia cinematográfica parecem casar de modo sobrenatural”. Faz sentido: o romance sobre o eterno conflito humano de “luz x trevas” soa ideal para o expressionismo alemão de Friedrich Wilhelm Murnau, movimento no qual o relacionamento entre luz e sombra é o elemento estético mais significativo.

Junta-se a isso, o livro de Stoker tem como narrativa principal a comunicação através de cartas, à base de descrição e de raros diálogos. Perfeito para um filme mudo, portanto.

F.W. Murnau já era um expoente do expressionismo alemão no início da década de 1920. O também alemão Albin Grau fora soldado na Primeira Guerra Mundial. Nas trincheiras dos Balcãs, especialmente na Sérvia e Croácia, acabou tomando contato e se apaixonando pela tradição de histórias de vampiros. Com o fim do conflito e uma ideia fixa na cabeça, de retorno à Alemanha criou uma produtora: a Prana Film. Grau foi portanto o patrão que contratou o roteirista Henrik Green e o diretor Murnau para adaptar Drácula.

Daí um outro problema entra em cena. Stoker morrera em 1912, aos 64 anos, após uma série de derrames cerebrais, segundo alguns devido a uma sífilis. Florence Balcombe, sua viúva, desautorizou completamente os direitos de Drácula a Albin Grau e seus amigos.

Os rapazes tentaram dar uma de espertos, mesmo ameaçados por ordens judiciais diversas por parte dos herdeiros de Stoker. Henrik Green e Murnau adaptaram o nome para Nosferatu – Uma Sinfonia do Horror (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens). Trocaram o nome do famoso conde Drácula para Orlock, mantendo-lhe o título de nobreza, entretanto.

Os roteiros Drácula e Nosferatu são muito semelhantes. A velha história de um homem que faz uma viagem para um castelo, uma mulher viaja junto ou em seguida. O vampirão velho de guerra (mesmo, geralmente algo como 1.200 anos de idade) dado a chupar sangue alheio, tenta seduzir a donzela prometida ao homem. Horror que segue.

Essa primeira turma do cinema ainda acrescentou elementos diversos visando alterar a obra original. Na boa, não funcionou. A inspiração era mais clara que a luz do sol que derrete o conde (no caso, uma das ideias diferentes do original, que era mais dado à tradição de que crucifixos e estacas eram fatais aos vampiros, nenhuma menção a raios solares no livro).

Uma bandeira sem fim, que ainda por cima teve estreia em Berlim, na cara dura, mesmo sob as ameaças judiciais. A primeira exibição de Nosferatu foi em 1922, no Jardim Zoológico da capital germânica — cuja estação de metrô e ônibus curiosamente faria história no cinema 60 anos depois, como cenário principal de Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo (Uli Edel, 1981), também baseado em obra literária, também com personagens pouco afeitos à luz solar, e algum sangue na história, extraído via seringas, no caso.

Não foi impossível evitar um processo, pois a senhora Florence Balcombe Stoker descobriu com facilidade a estreia dos rapazes. Não era pra menos. Os caras chegaram a utilizar inclusive o nome Drácula na divulgação em panfletos, imprensa e tudo o mais, ocultando-o apenas na película em si. Pinta de vampiro, cara de pau.

Foram processados por violação de direitos autorais, com condenação que exigia compensação financeira pelos responsáveis e destruição de todas as cópias do filme. O processo encerrou-se em 1925, com os réus condenados.

E assim foi feito, só que algumas cópias foram escondidas e acabaram nos Estados Unidos, ainda no final daquela década. E, inadvertidamente, na América os direitos eram liberados, devido a um erro de seu cadastro de propriedade intelectual. O filme foi exibido à exaustão a partir de 1929. O resto já sabemos, até hoje.

Ao que interessa: Nosferatu é uma obra-prima do expressionismo alemão, e do cinema de todos os tempos. Sua luz, seu enquadramento, suas interpretações, seu roteiro, suas cenas de profundo medo e terror, seu visual soturno. Todo este conjunto foi responsável pelo fascínio inicial de Drácula pela primeira vez nas telas, após o fascínio já exercido pelo folclore, e em seguida livros. Depois copiados e adaptados do mesmo romance (daí autorizados e sem processo) à exaustão, com imenso sucesso.

Desde esta primeira interpretação do vampiro por Max Schreck, o famoso conde foi encarnado por nomes como Bela Lugosi, Christopher Lee, Klaus Kinski (em releitura do clássico de Murnau dirigida por Werner Herzog em 1979, com Isabelle Adjani no papel de Lucy Harker, a mocinha da vez) e Gary Oldman (da versão fiel de Coppola à obra de Bram Stoker, de 1992). Todos, sem exceção, imortalizaram (ainda mais) o vampiro mais famoso de todos os séculos.

Em 2022 Nosferatu completa cem anos. Como um vampiro, ilegal. O filme ilegal mais popular da história.

Ouça. Leia. Assista:

Nosferatu – 1922, dir. F.W. M urnau – filme completo

Dracula, romance de Bram Stoker

Nosferatu – 1979 – Werner Herzog – filme completo

Imagens: reprodução