Revista ajudou a popularizar os quadrinhos fantásticos e de ficção científica europeus do lado de cá do Atlântico, emblemática e inesquecível aos leitores de toda uma geração
Em 1975, o editor norte-americano Leonard Mogel estava na França divulgando sua revista de humor National Lampoon, quando conheceu uma publicação de quadrinhos francesa com temática inusitada a qual nunca havia visto sequer semelhante. A Metal Hurlant, uma revista ilustrada de ficção científica com sotaque das HQ’s europeias. Colorida e fascinante, Mogel não pensou duas vezes em trazer para a América uma versão da MH.
Renomeou a revista como Heavy Metal, e rapidamente carimbou sua marca na cultura popular dos EUA na forma de seu brilhante logotipo. A versão americana tinha seu conteúdo formado basicamente por uma exposição de euro-comics sofisticados, assinados por lendários artistas europeus como Enki Bilal, Philippe Druillet, Milo Manara e o consagrado Moebius. A grande maioria era inédita do outro lado do oceano Atlântico, até então.
A revista (mensal) foi um sucesso imediato. Cheia de fantasia, universos paralelos, distopia, robôs, violência, erotismo. A influência em torno da Heavy Metal ajudou a popularizar quadrinhos europeus assim estreou em abril de 1977.
Seu destaque inspirou cineastas como Ridley Scott, Guillermo del Toro e James Cameron. Em 1981, houve o avanço para o cinema. Alguns temas da revista ganharam formas animadas, dando origem ao filme Heavy Metal, dirigido por Ivan Reitman.
Numa época em que os quadrinhos americanos ainda eram impressos em papel de jornal, a glamourosa Heavy Metal distorceu as mentes de uma geração de fãs de gibis (principalmente homens) em busca de material mais forte, agressivo e transgressor.
Não tardou para a fama da Heavy Metal alcançar a América do Sul, com muito sucesso no Brasil, Chile e Argentina, especialmente. O curioso é que — ao menos no Brasil — os fãs liam a revista no original em inglês. Compravam em dólar convertido para cruzeiro e há uma geração de brasileiros que aprendeu o idioma estrangeiro com o impulso da revista. A Heavy Metal só ganhou uma edição brasileira em 1995, licenciada pela Metal Mamooth. O filme de 1981 também foi bastante procurado por fãs, especialmente em salas alternativas. As famosas “sessões da meia-noite”, em muitas capitais. A verdade é que tanto a revista quanto sua marca contavam com um charme irresistível aos olhos de apreciadores de HQ.
Nos 30 anos seguintes, a Heavy Metal foi aos poucos perdendo seu brilho, à medida que suas ofertas inovadoras de ficção científica europeia, steampunk, erótica e material fantástico sombrio se espalharam no mercado dos Estados Unidos, influenciando os quadrinhos de super-heróis americanos, bem como os editores de quadrinhos independentes. Embora a revista continuasse publicando em um cronograma irregular, o grande barulho que a marca gerou no consumidor em seus primeiros dias acabou se transformando em um rugido monótono. De toda forma, com leitores fieis, sendo um clássico indubitável e uma marca fortíssima. O arrefecimento das “febres” é bastante natural se olharmos a trajetória do mercado de quadrinhos ao logo de todo século 20. A Heavy metal — bem como sua “matriz” francesa — reinou absoluta por uma década, até 1987, período mais ou menos no qual as graphic novels de Frank Miller, Bill Sienkiewics, Neil Gaiman e Alan Moore tomariam conta, e a vez.
O tempo passou e em 2019 os proprietários da Heavy Metal trouxeram uma nova equipe criativa e editorial liderada pelo CEO Matthew Medney (que também é um autor popular) e o editor/diretor criativo David Erwin, juntamente com uma equipe de marketing da indústria de HQ, em um esforço para recapturar a velha magia da Heavy Metal. Uma estratégia ambiciosa que abrange publicação, produção de mídia, música e muito mais.
Mas em um cenário digno da ficção científica da revista, a Heavy Metal anunciou um grande relançamento na mesma época em que uma pandemia global viria a paralisar o varejo e a distribuição, atirando ao caos os planos até mesmo de editoras bem estabelecidas. 30% da receita desapareceu da noite para o dia. Havia grande presença em bancas de jornais e distribuição em livrarias como a Barnes & Noble. O corte foi significativo.
A empresa girou rapidamente e começou a distribuir seus livros, quadrinhos e mercadorias diretamente ao consumidor, e as vendas online da Heavy Metal cresceram 65% após uma reforma de sua loja online em março de 2020. Como reforço, a editora também lançou a Virus, uma marca de propriedade com o mesmo modelo de distribuição direta.
Quadrinhos de antologia nos Estados Unidos raramente ganham muita força, mas a abordagem da Heavy Metal se assemelha mais à estratégia dos editores de mangá no Japão, onde a antologia é simplesmente o trampolim para séries que eventualmente serão destinadas a edições de livros colecionáveis.
Assim que o mercado se estabilizou, a nova equipe começou a implementar seu plano-mestre criativo. O programa de publicação de histórias em quadrinhos estabeleceu alguns personagens e conceitos centrais, como histórias contínuas, feito a Taarna, uma heroína de ação e rainha guerreira, escrita por Stephanie Phillips e desenhada por Patrick Zircher e outros; Cold – Dead War, uma história de guerra de zumbis escrita por George C. Romero com arte de German Ponce; e The Rise, outro projeto zumbi de Romero, este com arte de Diego Yapur, ambientado no mundo de Night of the Living Dead, o clássico filme de terror dirigido pelo pai de Romero. Todos os três arcos iniciais da história agora estão sendo coletados como coleções de livros comerciais a serem publicados ainda este ano e distribuídos para o comércio de livros pela Simon & Schuster.
A “estrela da companhia” — a revista Heavy Metal — que comemorou sua 300ª edição no verão de 2020, continua como um título mensal de antologia colorida. A visão se dá em abordagem focada. “Estamos lançando uma nova história ou série todo mês”, revelou para a revista Publishers Weekly o editor executivo Joe Illidge, há um ano. “No passado, esses seriados tinham 10 ou 12 capítulos. Agora estamos fazendo coisas mais compactas, talvez seis ou sete capítulos, mas cada um deles repleto de ação, para que você obtenha mais retorno do seu investimento”.
A editora também está se aventurando na publicação de livros em prosa, começando com um título de Medney, um autor prolífico e popular que escreveu várias séries de quadrinhos para Heavy Metal. Seu romance de ficção científica, a saga galáctica Beyond Kuiper, foi publicado pelo selo Heavy Metal no verão passado. O livro esgotou sua primeira impressão de 5 mil cópias. Encorajada pelos resultados iniciais, a editora lançou uma edição especial de capa dura em novembro.
Medney disse que este é apenas o primeiro livro de um crescente catálogo de prosa que a Heavy Metal vai colocar no mercado. Já está rolando uma sequência de Kuiper, ainda um thriller de ficção científica de Blake Northcott, chamado Arena Mode, e uma nova edição revisada do romance em prosa de 2010 do cartunista Bob Fingerman — Pariah, uma história sombria e cômica sobre zumbis.
Como a Heavy Metal tem uma pegada cultural tradicional e gigantesca, as ambições da revista atual vão além da estante. Como qualquer outra editora de quadrinhos, a Heavy Metal tem ambições para a produção de mídia, incluindo o desenvolvimento de Arena Mode em sua primeira série de TV e outros projetos que, é claro, incluem desenhos animados. A série de animação Love, Death + Robots que está na Netflix é claramente inspirada na Heavy Metal. Só não foi ela mesma uma versão oficial por desacordos entre os diretores Tim Miller e David Fincher com Mathew Mednev.
A Fox Digital Studio, a Heavy Metal Media e a 4th Row Films estão desenvolvendo um documentário sobre a revista, com o diretor Douglas Tirola no projeto.
Fãs de quadrinhos sabem o que é esperar. Vamos aguardar.
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Heavy Metal (1981) – trailer
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Imagens: reprodução