Troca de ideias no Hotel Delmonico em Nova York decretou uma guinada na vida da banda mais paparicada do momento e ajudou a mudar os rumos da música pop
Em 1964, boa parte da intelectualidade norte-americana e europeia já havia se curvado a um cantor folk que havia pouco tempo rodava os clubes do Greenwich Village com seu violão, entoando canções com letras de qualidade acima da média. Bob Dylan era o cara mais cool da América.
Em 1964, a Inglaterra já havia explodido com uma banda que havia pouco tempo ainda tocava covers de R&B norte-americano, com carisma acima da média e idolatria jamais vista na ilha da Rainha. Os Beatles eram o assunto do chá das cinco britânico.
Pouco antes de Bob Dylan eletrificar o folk com guitarras, causando decepção e protesto, bem como de os Beatles realizarem imersão mais aprofundada nos sons acústicos e elementares do oriente e consciência interior, houve um encontro ao qual muitos creditam tanto uma coisa quanto a outra.
Os Beatles não eram diferentes de todo o mundo, e em visita avassaladora aos EUA — na qual arrebataram ainda mais fãs e pela primeira vez em estádios lotados, inaugurando a era dos megaconcertos — também queriam conhecer Bob Dylan.
Arredio, Bob Dylan topou. E o encontro foi marcado no Hotel Delmonico, em 28 de agosto de 1964, ali no número 56 da Beaver Street. Reza a lenda (de caráter bastante duvidoso) que através do bardo americano os Beatles experimentarem marijuana pela primeira vez na vida, durante este encontro.
Dizem que antes disso os jovens músicos ingleses rejeitavam a maconha com certa ênfase. Para eles, quem fumava era viciado. Após a conversão feita por Dylan, eles começaram a compor suas músicas próprias (que ainda eram poucas) sob o efeito da erva.
Dentre os Beatles, John Lennon era quem já havia algum tempo alimentava o desejo de conhecer Bob Dylan. Ele o encarava como a um contemporâneo, e com o barulho acerca do poeta que já cruzara o Atlântico, o inglês o encarava também como mais um concorrente da música pop. Reza outra lenda, no entanto, que Lennon na verdade sentia grande ponta de inveja pelo fato de Dylan ser notoriamente um letrista excepcional.
Havia pouco tempo que os Beatles começaram a sentir a necessidade de escrever suas próprias canções. E não é difícil notar que já havia ecos de tentativas mais intimistas, como em I’ll Cry Instead, que consta em A Hard Day’s Night (Os Reis do Iê-iê-iê no Brasil), que era soundtrack de um filme estrelado pela banda, lançado naquele mesmo ano.
Al Aronowitz — amigo tanto de Dylan quanto do grupo — foi quem ligou a parada para o encontro. Aronowitz escrevia para o Saturday Evening Post. Em 28 de agosto, os Beatles tocaram no Forest Hill Tennis Stadium. Depois, rumo ao hotel.
Aronowitz foi buscar Dylan na sua residência em Woodstock, localidade nos arredores de Nova York que ficaria famosa alguns anos depois por motivos óbvios. Chegou ao Delmonico em uma perua azul, da Ford. Na chegada, havia dois policiais que os conduziram até o andar da banda.
Ao saírem do elevador havia ainda mais polícia e uma espécie de pequena festa no local. Muita gente de rádio, jornalistas e o trio Peter, Paul e Mary também estavam esperando para ingressar na suíte do quarteto de Liverpool que ganhara o mundo.
Enfim, o encontro. Pequenas apresentações e as gracinhas de ambas as partes de sempre. Dylan pediu vinho e a coisa descontraiu. Ofereceram pílulas a Dylan mas tanto ele quanto Aronowitz não curtiram a ideia. Ou seja: os Beatles mão fumavam maconha, mas tomavam boleta. Era um “auxílio” nas intermináveis turnês, digamos.
Dylan, por sua vez, sugeriu que eles gostariam de experimentar algo natural, verde e orgânico. Os — agora tímidos — ingleses, junto com Brian Epstein, toparam. Por que não? Dylan então acendeu o joint.
Como acontece com a maioria dos iniciantes na erva, achavam muita graça nas coisas mais estúpidas. Dylan os observava, apenas. Eles às gargalhadas. Riram até não se aguentar mais. Após este episódio, o termo “let’s laugh a little” (vamos rir um pouco) tornou-se sinônimo de “vamos fumar um”, em piada interna do grupo.
Aos fatos: após encontrar o compositor mais cult do período, os Beatles compuseram e gravaram seus melhores álbuns. A partir do ainda ligeiramente inocente Help (1965), começa uma verdadeira reviravolta com Rubber Soul (também de 1965), Revolver (1966), Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967)… e assim por diante até o fim do grupo em 1970. Psicodelia, expansão da consciência, orquestrações de George Martin, instrumentos indianos, maturidade e muita revolução. Tornaram-se o maior grupo musical da história.
Dylan, por sua vez, em que pese ter sido chamado de “traidor” por radicais do folk naquele período, por “excesso de eletricidade” — que não se deve certamente ao encontro com os Beatles, mas ao rock’n roll como um todo — continuou tocando, gravando e mudando corações e mentes. Ganhou o Nobel de Literatura em 2017.
Continua ativo e forte.
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Imagens: reprodução