Artista tem como marca registrada sua voz rouca, que funciona tanto na música quanto no cinema
Em 1969, um jovem poeta costumava subir ao palco do café Heritage, em San Diego. A atmosfera e o ambiente lembravam um cabaré vitoriano. Ele interpretava canções de Bob Dylan de um jeito todo especial. Não raro abria shows para artistas que estavam em turnê pelo sul da Califórnia.
Thomas Alan Waits, nascido em uma família de classe média nos arredores de Los Angeles, parece mais um dos viventes californianos apaixonado pelo estilo de vida retratado na literatura beat. Mas é um tanto mais. Ele é Tom Waits: ator, cantor e compositor, viria em futuro próximo a realizar álbuns como Small Change (1976), Rain Dogs (1985) e Bone Machine (1992).
Waits morava em seu carro e em quartos de pensão ou hotéis vagabundos enquanto o mundo vivia o sonho hippie. Ele iniciava sua carreira. Sua personalidade meio freak-show meio cabaré Voltaire lhe confere um ar boêmio, clássico dos clubes esfumaçados em que ele se apresentou pela primeira vez no final dos anos 1960, a exemplo do citado Heritage, em San Diego.
Com fortíssima influência do burlesco, jazz, blues e música de vanguarda, combina arranjos diferenciados com seu próprio jeito de tocar piano ou violão, ou algum instrumento esquisito, no qual interpreta suas composições com letras que fluem como a consciência, lembrando os textos dos seus ídolos Jack Kerouac ou William Burroughs. Também não dá pra esquecer do contemporâneo e conterrâneo Charles Bukowski, ícone do estilo “bebum-sul-californiano” emulado por Waits, talvez de uma estética presente desde os clássicos noir de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, promovendo uma espécie de fotossíntese no qual o sol da Califórnia faz suar, e assim devolver o álcool ingerido por seus viventes ao ar puro e latino do lugar, que sustenta aquela fauna.
Embora os álbuns de Tom Waits tenham encontrado um sucesso comercial considerável na Inglaterra nos 1980’s, mesmo seus registros mais vendidos (Small Change-1976 e Heartattack and Vine -1980) não entraram sequer no Top 40 dos EUA.
Sua música foi gravada pelos Eagles (Ol’ 55), Bruce Springsteen (Jersey Girl) e Rod Stewart (Downtown Train). Ele também compôs para cinema. Co-escreveu o musical Frank’s Wild Years (que estreou em 1986) e colaborou com o escritor (e ídolo) William Burroughs e o diretor de teatro Robert Wilson em outro musical, The Black Rider (1990). O brasileiro Carlos Careqa interpreta Tom Waits em seu disco/espetáculo Esperando Tom, desde os anos 2000.
Tom Waits é inclassificável. Alguns exemplos são clássicos do inclassificável: o disco Bone Machine (1992) é um álbum que amplia sua verve experimental — iniciada em 1985 com Rain Dogs, e que seria característica principal em toda a década de 1990. Bem, por essa obra Waits ganhou um Grammy de melhor álbum de música alternativa. Já seu álbum de 1999 Mule Variations levou o Grammy de melhor álbum folk contemporâneo. Classifique se for capaz.
Em 2009 Waits lançou Glitter and Doom, uma série de gravações ao vivo de sua turnê de 2008. O primeiro lançamento de estúdio de Waits desde 2004, Bad as Me (2011), uma coleção de canções de amor e álcool, foi aclamado pela crítica.
Tom Waits tem como marca registrada a voz rouca, que funciona tanto em sua música quanto em suas interpretações marcantes no cinema. É presença frequente em produções de diretores como Jim Jarmusch e Francis Ford Coppola. Com o primeiro, fez sua fama em Down by Law (1986) e com o carcamano atuou em Drácula de Bram Stoker (1992). Tem atuação memorável em Ironweed (1987), de Hector Babenco, no qual interpreta um…. bêbado.
Diz-se que aquela “voz de uísque” vem de um tempo no qual imitava o jeito de falar de um tio, dado a enxugar como ele só. Outra lenda é a de que “danificou” a voz tentando agradar as plateias repletas de fãs ensandecidos de Frank Zappa, que atiravam ovos e tomates no palco nos shows de abertura que ele fazia para o Mothers of Invention no início dos anos 1970.
O destino dá voltas. Tom Waits — o garoto da Califórnia — tornou-se por mais de um quarto de século um nova-iorquino típico, nos moldes de Woody Allen e Martin Scorsese. Não gosta de viajar, dizem que morre de medo de avião, e apresenta-se muito pouco ao vivo. Isso deve explicar a ausência do cultuado artista em festivais mundo afora, especialmente pela América do Sul. Waits mudou-se para NY em 1980, quando conheceu Kathleen Brennan, que passou a ser sua grande parceira e que o encorajou a experimentar ainda mais, fazendo seu trabalho ganhar o viés de vanguarda pelo qual é conhecido desde então. São casados desde 1992.
Há um brinquedo divertido na internet, o Tom Waits Map, onde o internauta pode clicar em um lugar apontado no mapa onde haja referência em alguma a canção de Tom Waits. A maior parte dos lugares está em Nova York e na Califórnia, por certo.
O autor da biografia não-autorizada Lowside of The Road: A Life Of Tom Waits (2009), Barney Hoskyns revelou à época em entrevista à Folha de São Paulo que “Tom Waits é a maior anticelebridade da nossa era, e apresenta uma distinção bem clara entre vida e arte. É um exemplo muito bom, já que músicos de hoje são estimulados a vender detalhes de suas vidas como parte do trabalho”. Hoskyns conta que aprendeu a gostar de Tom Waits quando jovem, ao passar um verão morando com Nick Cave e seus discos, em Londres.
Tom Waits gravou mais de 20 álbuns e atuou mais ou menos na mesma quantidade de filmes ao longo de mais de 50 anos, sendo sua mais recente participação conhecida em A Balada de Buster Scruggs (2018) dos irmãos Joel e Ethan Coen.
Hoje Tom e Kathleen vivem em uma fazenda no condado de Sonoma, Califórnia. Waits conta 73 anos em 2022. Continua sendo um caso à parte na música e nas artes dos séculos 20 e 21.
Avesso à fama, foi introduzido no Rock and Roll Hall of Fame em 2011.
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Ouça. Leia. Assista:
Mule Variations (1999) – Tom Waits, álbum completo
Heartattack and Vine (1980) – Tom Waits, álbum completo
Rain Dogs (1985) – Tom Waits, álbum completo
Tom Waits Map – um mapa dos lugares nas canções de Tom Waits
Lowside of The Road: A Life Of Tom Waits, by Barney Hoskyns
Down By Law (Jim Jarmusch, 1986)
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Imagens: reprodução