O INCONSCIENTE É A POLÍTICA?

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Ou o que significa um curso de bacharel em psicanálise tal como está proposto pela Uninter, em Curitiba.

Psicanalistas minimamente sérios e comprometidos com sua prática sabem que a formação do psicanalista é interminável e singular e que o que ancora a formação é análise, supervisão, estudo teórico e que ainda assim, não há garantias que uma análise aconteça só porque há alguém dizendo que é analista e outro alguém dizendo que é paciente. As instituições psicanalíticas estão aí, numa tentativa de formalizar essa transmissão, e algumas delas se arriscam a dizer que formam analistas.

A psicanálise fica então nesse lugar de borda, sem morada fixa, na fronteira. ‘Ah, mas então não precisa ser psicólogo ou médico para ser psicanalista?’ Essa é uma pergunta que sempre demanda uma longa resposta, necessariamente histórica e política.

A partir de Lacan, uma revolução se deu no percurso de formação dos psicanalistas: as instituições de psicanálise já não precisavam ser filiais de Freud, o que permitiu uma enorme inventividade e criação no campo psicanalítico e também a necessidade de um questionamento menos standard sobre os critérios de formação. Essa, aliás, é uma característica marcante das instituições de psicanálise lacaniana: uma discussão infinita sobre critérios de formalização e de transmissão da psicanálise. Não há uma única instituição de psicanálise séria que em algum momento não tenha se perguntado sobre sua lógica de funcionamento. Ao mesmo tempo, as instituições de psicanálise que derivam da associação inaugural formada por Freud e seus contemporâneos ainda seguem seu curso e, na atualidade, há uma tendência de maior interlocução entre os grupos e autores da psicanálise.  

Ao mesmo tempo, na cultura, inclusive na cultura brasileira, a difusão da psicanálise foi rápida.  Já no início do século passado ganhou lugar nos jornais, nas rádios, no campo da educação, da filosofia, sociologia, antropologia, da literatura, das artes, além, é claro, da medicina, que foi seu campo de origem. Há várias pesquisas acadêmicas que descrevem essa história. No Brasil, há departamento de psicanálise, há linhas de pesquisa em psicanálise, em inúmeros cursos de pós-graduação das mais diferentes áreas.  Na pós-graduação, a psicanálise entra como uma possível especialidade de alguma área de formação. Você é bacharel em psicologia, letras, filosofia, medicina e pode fazer uma especialização em psicanálise. No entanto, isso ou qualquer outro curso, felizmente, não o torna um psicanalista. 

Não há a regulamentação da profissão de psicanalista no Brasil, justamente por essa dificuldade de formalizar, transmitir e estabelecer objetivamente e consensualmente os critérios de formação e transmissão. Há uma preocupação muito grande nesse quesito, pois psicanalistas tratam de pessoas que estão em sofrimento psíquico: a pessoa que começa a trabalhar como analista, analisou suficientemente seus conflitos psíquicos de modo a estar advertido a não oferecer um “modelo de saúde” baseado em sua própria história pessoal, ou em suas crenças? Fará algum tipo de intervenção que pode ser traumática ou danosa para o paciente, e que piore sua situação em vez de ajudar?  O analista fala que está trabalhando com psicanálise mas está oferecendo conselhos baseados em alguma outra coisa que não a teoria psicanalítica? Sabemos que há muitos terapeutas e linhas por aí, oferecendo treinamentos, curas rápidas, regressões, baseados em religiões, energias, que oferecem cursos de formação, inclusive alguns falando em nome da psicanálise. Acontece que a psicanálise é um campo que tem uma especificidade que é diferenciadora: o psicanalista sabe que não sabe, sabe que seu saber não é todo, que o psiquismo é dividido por definição, que o encontro analítico é sempre imprevisível e uma aposta. Não promovemos felicidade, escutamos e trabalhamos com o mal-estar, a angústia e o sofrimento, com o que há de mais difícil de ser dito. Por isso falamos tão pouco. É preciso escutar com muito cuidado antes de intervir. Demora, leva tempo, dá trabalho, desgasta, cansa. E estamos sempre tendo que trabalhar com as resistências: as nossas, as dos pacientes, as que se criam no trabalho analítico, as resistências do movimento de institucionalização da psicanálise, as resistências à psicanálise. É preciso seguir estudando, discutindo os casos, se analisando, escrevendo, mantendo trocas teóricas e clínicas com outros psicanalistas para que a lógica da escuta analítica não se perca. Uma formação interminável. Tudo isso para criar suporte para uma escuta que não seja baseada em ideais, crenças e convicções pessoais do analista, mas ancorada na ética da psicanálise. 

No entanto, é uma teoria com uma potência tal que fundamenta não apenas essa clínica tradicional como também embasa intervenções sociais, elaboração de políticas públicas, intervenções na educação, na área organizacional, de crítica social e por aí vai. Trabalho sério da psicanálise na interface com outras áreas do conhecimento e que precisam necessariamente delas. Ou seja, a psicanálise, ainda que contribua para a discussão, não dá conta sozinha de propor a elaboração de políticas públicas e assistenciais, inclusive de saúde mental. Daí a importância de psicólogos, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, sociólogos, antropólogos, educadores com todo seu referencial teórico para fundamentar essas práticas. As contribuições mais interessantes da psicanálise para a discussão do social são aquelas que sustentam as diferenças e as complexidades ao articular esses outros campos. Por exemplo, um texto que tente explicar as atrocidades de um líder autoritário apenas por suas questões edípicas, como se isso esgotasse a questão, é um mau texto ou, na melhor das hipóteses, um texto absolutamente desconectado das discussões contemporâneas da psicanálise. De fato, a psicanálise pode ajudar a problematizar essas questões e há excelentes exemplos dessas articulações, mas nesses casos, há autores de outros campos que são indispensáveis. Houve todo um entusiasmo explicativo nas primeiras décadas da psicanálise com textos que tentavam ampliar o escopo da psicanálise para outros campos além da clínica. No entanto, com o passar dos anos a psicanálise foi se transformando e o campo analítico, pelos mais variados caminhos e debates epistemológicos, aprendendo a situar seus limites e paradoxos.  

Nesse contexto, onde entra um curso de bacharelado em psicanálise à distância, recentemente aprovado pelo MEC? Talvez fosse até possível pensar numa proposta de isolamento do estudo teórico: um curso voltado à formação de pesquisadores de teoria psicanalítica.  No entanto, na proposta de curso está sugerida a atuação na área assistencial, de gestão, “utilizando seus conhecimentos de forma a aplicá-los no seu campo de atuação profissional na promoção, prevenção, assistência e reabilitação da saúde mental em ações autônomas individuais, grupais e na atenção coletiva, em consultorias ou assessorias interprofissionais e institucionais.” Ora, a ideia é que se fundamentem intervenções baseadas na psicanálise a partir do curso de bacharelado e apenas uma formação teórica não oferece subsídios suficientes para a intervenção. 

O campo analítico tem muita dificuldade de dizer quando uma formação é suficientemente boa, mas há consenso de que apenas o estudo teórico é insuficiente para elaborar uma intervenção clínica. É incoerente com os fundamentos básicos da psicanálise.  

O grande receio é que “bacharéis em psicanálise” passem a atuar em comunidades terapêuticas e políticas assistenciais com a mesma lógica que já vem sendo aplicada em alguns cursos de formação de “psicanalistas” vinculados a comunidades que não têm compromisso com o pensamento científico e crítico nem com o diálogo com as outras ciências humanas. Há indícios dessa desvinculação, na medida em que a discussão da proposição desse curso ocorreu à margem da discussão acadêmica e institucional da psicanálise no Brasil, justamente em um momento de acelerado desmonte das políticas públicas de atenção à saúde mental do nosso país. 

Declaro meu apoio ao Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, que escreveu o seguinte Manifesto

Nós, do Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, que reúne há mais de 20 anos instituições que tem como ponto central sustentar a psicanálise como prática leiga e laica, manifestamos nossa preocupação com a divulgação recente de um curso de Psicanálise oferecido pela Uninter, em nível de graduação e com titulação de Bacharelado.

A proposta de tal curso diverge de princípios básicos da formação do psicanalista, que deve ser sempre singular e permanente, com um investimento contínuo que não se restringe aos moldes acadêmicos e a determinada grade curricular. Reduzir a formação analítica ao conhecimento de teorias e técnicas, prometendo que em 4 anos, cumprindo determinados quesitos, todos estejam aptos para a prática psicanalítica, contradiz o conceito de ensino e transmissão na Psicanálise.

A formação em Psicanálise decorrente da análise pessoal, da leitura crítica da teoria e das reflexões clínicas, se dá sempre de modo singular, não cabendo em programas fixos e comuns para todos, em um tempo pré-determinado. A oferta desse curso desconsidera essa especificidade da formação do psicanalista e negligência a formação do psicanalista praticada há mais de 100 anos, em todo o mundo.

O campo da Psicanálise, assim como o Movimento Articulação, são caracterizados pela diversidade, fato que comemoramos, tendo como ponto em comum conceitos psicanalíticos de base que delimitam o campo, entre eles, a singularidade no processo de formação, que se dá um a um e que possibilita estabelecer com o saber um modo de relação que diverge daquele propiciado pela transmissão efetuada nos moldes acadêmicos.

Desse modo viemos a público alertar quanto à falta de rigor verificada na proposta desse Bacharelado, repudiada por todos os abaixo assinados.

O repúdio a esse curso é assinado até o momento de finalização desse texto por 48 instituições de psicanálise e apoiada por outras 101 entidades.    

Além disso, há inúmeros textos de psicanalistas reconhecidos pela comunidade psicanalítica que manifestaram seu repúdio à criação desse curso. Estamos repostando na página do Instagram e do Facebook do Movimenta Psicanálise os que consideramos pertinentes para a discussão.

Que a psicanálise siga sem morada fixa, sempre incômoda e incomodada por onde passa. E que seja possível criar caminhos para a democratização da psicanálise no Brasil que esteja em consonância com a riqueza e da diversidade da psicanálise que se faz em nosso país.

Seguimos! 

*A imagem do texto é uma foto da obra Slowmoticon de Claudia Lara e de seu avesso. É desse avesso que tratamos na psicanálise. [Ave Mãe, de Claudia Lara. Editora Medusa: Curitiba, 2019.