O vento cítrico e o pó fazendo redemoinho. O sangue na terra e o olho espantado vendo nada.
– É bem o que eu preciso, disse o jovem proponente. Uma área não muito grande, fácil de cuidar, mas onde tem espaço pra construir uma boa casa, maior que essa sua, uma piscina com deck… e até uma quadra de tênis ali, tá vendo? Só acertar – um pouquinho o terreno.
O proprietário da chácara foi somando mentalmente o tanto de área que demandaria a construção de uma piscina com deck e uma quadra de tênis. Sem conseguir concluir o cálculo, a angústia que lhe sobreveio saiu na forma de uma pergunta.
– Vai cortar muita árvore?
– Algumas com certeza, disse o proponente. Tem muita aqui, não vão fazer falta. Batemos o martelo, então?
– É uma proposta menor do que o valor que eu tinha pensado até como margem de negociação, mas não vou negar que preciso vender.
– Questão de oportunidade, emendou, confiante, o proponente.
– Sei como é, quando comprei aqui foi um negócio de ocasião para mim. – ele comprimiu os lábios – Se o senhor prometesse deixar a maioria das árvores em pé, confesso que facilitaria.
O proponente riu sem muito entusiasmo. Depois disse que compreendia o fato de o proprietário ser “muito apegado a esse mato”. Mas acrescentou ter dado uma boa olhada na região e visto que os vizinhos aproveitavam quase todo o terreno que tinham. O proprietário sentiu o vento bater contra seu rosto.
– Pois foi isso que me deixou ainda mais ligado a essas árvores. As maiores já estavam aqui quando cheguei. Outras eu vi nascer sozinhas, crescer e tomar a forma que têm hoje. Só plantei as do pomar, como lhe disse.
Disfarçando a impaciência, o proponente disse que talvez não fosse preciso derrubar tudo. Em seguida reformulou a frase, pois teria se expressado mal. O que eu quis dizer mesmo, ele enfatizou, foi que não vai ser preciso mexer na maioria desse mato, o senhor pode ficar tranquilo.
– Vamos voltar para a casa, lá terminamos de conversar.
Cipó Caboclo tá subindo na virola
Chegou a hora do pinheiro balançar
Sentir o cheiro do mato, da imburana
Descansar, morrer de sono na sombra da barriguda
Quando passaram pelo pomar, o proprietário aproveitou e colheu dois limões. E disse que plantou a muda daquele limoeiro enorme há uns 40 anos, e que a muda tinha um metro, se tanto. Disse também que os limões dali eram adocicados.
– Uma tia minha fala com plantas, o senhor também?, perguntou o proponente.
– Não. Eu só olho para elas. É uma conversa entre almas.
Já na varanda da casa, ele serviu ao proponente um dos copos com o vidro embaçado de limonada gelada. Olhou para a área externa com a sensação de quem olha o que já não está mais ali.
– Se o senhor me der sua palavra de que vai preservar o máximo de árvores que puder, fechamos o negócio pela sua proposta. E ainda lhe deixo as ferramentas que estão no paiol, que eu ia vender. Tem muita coisa lá.
De nada vale tanto esforço do meu canto
Pra nosso espanto, tanta mata haja, vão matar
Tal Mata Atlântica e a próxima Amazônica
Arvoredos seculares, impossíveis replantar
– Ah, chega, não aguento mais.
– Mas agora que você tava sacando tão bem?
– Tá muito quente, amor, vou entrar.
– Não vai nem cair na piscina um pouco?
– Quero sair desse sol, e só dentro de casa, né?
– Então, faz uma caipirinha. Eu vou dar umas braçadas e já, já entro também.
– Tsc, tsc… o limão que você trouxe do mercado acabou ontem.
– Sério? Porra, eu tô seco por uma caipirinha… Já sei, vou lá embaixo ver se tem algum limão. Isso se o caseiro já não cortou aquele troço, o homem é o terror da motosserra! – o novo proprietário usou a raquete de tênis para simular o um arbusto sendo ceifado.
Que triste sina teve o cedro, nosso primo
Desde menino que eu nem gosto de falar
Depois de tanto sofrimento, seu destino
Virou tamborete, mesa, cadeira, balcão de bar
Depois de passar os olhos pelo depósito de tralhas que era aquele paiol, tenuamente iluminado pelo dia que entrou com ele ali, decidiu-se pela terceira alternativa. Não havia escada nem nada que lembrasse uma haste, mas o facão pendurado na parede deve servir para botar abaixo uns galhos, ele pensou. Isso parece uma espada, bora lá buscar essa caipirinha!
Quem, por acaso, ouviu falar da sucupira
Parece até mentira que o jacarandá
Antes de virar poltrona, porta, armário
Morar no dicionário, vida eterna, milenar
Deu o primeiro impulso com o pé direito para subir no tronco e – Caralho!, a maldita ponta de um galho que ele não viu riscou um traço do cotovelo até quase o pulso de seu antebraço direito. Antes de tentar de novo, desceu a lâmina sobre aquela ponta. A ferramenta, surpreendentemente afiada, fez o galho dobrar no primeiro golpe. Repetiu o impulso e agora tudo bem. Olhou para cima. Calculou que bastaria subir mais um ou dois lances para alcançar a base do galho em que se prendiam os limões. Tinha que se mover com cuidado, o lomoeiro tinha pontas traiçoeiras por todos os lados. Apoiou o pé esquerdo numa segunda forquilha do tronco mais grosso, um pouco acima de onde estava, e foi endireitando o corpo. Esticou o braço direito, estava quase lá. Poderia já começar a golpear o galho com a ponta do facão, mas o esforço seria bem menor se chegasse um pouquinho mais perto, então encontrou um outro galho à direita onde apoiou o pé direito e foi transferindo o peso do corpo para ali, ao mesmo tempo em que endireitou a coluna e pronto!, agora deve dar. Antes, levou a testa úmida até a mão esquerda para aliviar uma coceira. Quando voltou o rosto para a direita – Merda!, um ramo ou galho ou folha ou bicho ou sei lá o quê, se deslocou de repente e atingiu seu olho direito e o fez desequilibrar-se e ele tentou com a mão que segurava o facão agarrar algo que naquele atimo não pôde ver e tencionou a perna direita que escorregou do galho em que estava e a perna raspou na porra de uma lasca e a pele da coxa foi rasgada e a dor queimou e ele soltou a mão esquerda e abriu a direita e perdeu o facão no ar e perdeu a árvore e sentiu a inevitável queda de olhos semicerrados que viram o cabo tocar em pé a terra e o aço aprumar-se e a lâmina zunir e o corpo cair e o peito se opor à ponta da faca e o gume engolir o grito oco. O vento cítrico e o pó fazendo redemoinho. O sangue na terra e o olho espantado vendo nada.
Quem hoje é vivo corre perigo
Os inimigos do verde, da sombra, o ar
Que se respira e a clorofila
Das matas virgens destruídas vão lembrar
Que quando chegar a hora
É certo que não demora
Não chame Nossa Senhora
Só quem pode nos salvar é
Caviúna, cerejeira, baraúna
Imbuia, pau-d’arco, solva
Juazeiro e jatobá
Gonçalo-alves, paraíba, itaúba
Louro, ipê, paracaúba
Peroba, massaranduba
Carvalho, mogno, canela, imbuzeiro
Catuaba, janaúba, aroeira, araribá
Pau-ferro, angico, amargoso, gameleira
Andiroba, copaíba, pau-brasil, jequitibá
Que hoje é vivo corre perigo
OUÇA
Sandro Bacelar canta “Matança”, de Augusto Jatobá. O cantor e compositor baiano Augusto Jatobá, nascido na pequena Campo Formoso, é a perfeita tradução de um multiartista. No final dos anos 1960, atuou na propaganda em Salvador, como diretor de arte, ao lado do então redator publicitário João Ubaldo Ribeiro. Enquanto isso, cursava Belas Artes e Arquitetura na UFBA. Artista plástico, recebeu seu primeiro prêmio com apenas 15 anos de idade, das mãos de Assis Chateaubriand, e desde então participou de diversas exposições. Transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1972, onde criou uma empresa de programação visual, responsável pela abertura da novela “Cavalo de Aço”, da TV Globo. Como arquiteto, projetou no Rio a casa de Dori Caymmi e de um dos casais mais famosos da música brasileira da década de 1970, Antônio Carlos (da dupla Antônio Carlos e Jocafi) e Maria Creuza. Criou cenografias para eventos de Carnaval da Riotur e para um ballet no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A convite de Paulo César Pinheiro, em 1976 entrou na gravadora EMI-ODEON, onde passou a fazer capas de discos para artistas como Clara Nunes, João Nogueira, Dona Ivone Lara e Joel Nascimento. No ano seguinte foi para a RCA Victor assinar as capas dos discos de Maria Creuza, Toquinho e Vinicius, Antônio Carlos e Jocafi, Silvio César, entre outros. Na sequência foi também produtor musical, lançando LPs de nomes como Xangai, Elomar, Turíbio Santos e Manassés. Em 2002 recebeu da ALERJ o título de Cidadão Carioca. Nesse mesmo ano, a convite do então secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Rubens Ricupero, colaborou com a ONU durante evento realizado no Rio de Janeiro.
Imagens
1) Curupira, o lendário protetor das matas, em ilustração de Davi Sales
2) Foto de divulgação