O livro do “tio Barcímio” e algo ainda mais importante


Craque dos tempos românticos do futebol, Sicupira ganha biografia de raro feitio. A exemplo do futebol que jogava, o projeto foi tocado com paixão, raça e muita técnica

Uma vez, em momento de completa paixão estávamos ela e eu, numa tarde de fazer nada — as melhores — e fui buscar uma pasta entre os arquivos de mp3 no computador. Encontrei João Gilberto e enviei direto ao tocador. Quando o som começou, os acordes que soaram foram de Jovelina Pérola Negra. Minha amada me alertou que “aquilo não era João Gilberto”. Dei risada e disse que sabia, mas não entendia o que tava acontecendo. Fui verificar a pasta e, de fato, expliquei a ela: “puxa vida, a Jovelina Pérola Negra tá dentro do João Gilberto!”.

Pausa, silêncio à frase recém-proferida. Risos, seguidos de gargalhadas. Era fato: a Jovelina Pérola Negra está dentro de João Gilberto. Há algo na batida cool do gênio baiano da bossa nova que pulsa de forma portátil aquele turbilhão do supersamba da grande dama. Está tudo ali dentro. Como em uma pequena caixa de pedrinhas de diamante. Cai o pano.

Quem conhece Sandro Moser e goza de um mínimo de sensibilidade, sabe que o Brasil pelo qual ele torce, pensa, sofre e chora está quase todo na primeira metade do século passado. Há dentro dele aquele Brasil elegante, de um principesco Cartola, cuja origem é extremamente humilde, mas de altivez tamanha que o torna gigante. Há embutido em Moser algo que encontramos em sujeitos tão raros quanto Aldir Blanc e Fausto Wolf. A rapidez de seu raciocínio brilhante parece não caber dentro de seu generoso corpanzil, o que lhe confere uma elegância de movimentos, de gestos refinados e o andar de alguém que “parece que está indo bater um pênalti”. Não se enganem: o cara geralmente guarda na gaveta, e o goleiro não sai nem na foto.

É possível dizer sem medo de errar que há um Rio de Janeiro dentro de Sandro Moser. Mas como pode esse sujeito nascido em União da Vitória, radicado desde o berço em Curitiba, formado em direito e jornalista de ofício, fanático pelo Club Athletico Paranaense e estudioso da cultura popular? A resposta está no personagem que lhe faltava para enfim o “Polaco” — Moser tem uma variedade de apelidos — bater o pênalti. A sorte e o destino quiseram que este personagem estivesse sempre ali, na marca da cal. E não poderia de fato ser outro.

Quem conhece Barcímio Sicupira Júnior já entendeu toda esta alongada introdução. E consegue fazer toda associação possível. Que personagem ainda não biografado poderia reunir tantas características que remetem às referências estéticas e afetivas maiores deste Sandro Moser? Sicupira, pra começar, é o maior artilheiro do seu clube de coração. É um personagem que viveu exatamente na linha tênue que separa o futebol ultrarromântico pré-copa de 1958 e a fina flor que se seguiu. Esteve em campo ao lado de personagens mitológicos como Didi, Nilton Santos e Garrincha, ao mesmo tempo em que fez parte da geração dourada de Jairzinho, Pelé, Gerson, Rivelino, Tostão. Não como assistente ou testemunha. Jogando. Dentro dos palcos maiores do futebol ao redor do mundo, mais notadamente o Maracanã, onde brilhou com incontáveis gols pelo “Botafogo em transe” (1964-1967). E tudo isso na época e no lugar em cujas águas se banharam enfim o samba, a bossa nova, o esquema novo, o cinema novo, a beatlemania, a contracultura. A humanidade criativa em seu auge. Que personagem reuniria tantos pré-requisitos?

Quem conhece Barcímio Sicupira Júnior sabe que ele é o verdadeiro “tio do churrasco”. O verdadeiro, o especial e original. Não estes arremedos que vemos neste pós-Brasil. Conheço pelo menos três ou quatro moças bonitas que o chamam de “tio Barcímio”, uma delas sua afilhada. Sem consanguinidade, apenas porque ele era o “amigo do pai”. O tio de vida simples, parceiro de todas as horas, da amizade verdadeira, sem frescura. O cara que provê a mais bela e derretida costela direto de sua churrasqueira, sempre repleta de gente como os estádios em que brilhou. Aquele tio que puxa o carteado e anima a todos com piadas e causos nas tardes de chuva em alguma casa de praia. E foi a mesma proximidade familiar que uniu os destinos do biógrafo e seu personagem.

Que outro personagem traria dentro dele tanta coisa junta que Moser tal e qual traz em si? A bola estava cantada. Pronta. E Sandro Moser realizou seu primeiro livro: Sicupira – Vida e Gols de um Craque Chamado Barcímio (Banquinho, 2020).

Como descreve André Pugliesi em orelha que parece tirada de ouvido: há em Moser o “texto marginal de João Antonio e o sobrevoo permanente de Nelson Rodrigues”. Não por acaso, após uma introdução apaixonada e comovente, a partir dos olhos do seu pai Rodolfo Moser, em que descreve os motivos que o levaram a “ficar em Curitiba” após um golaço de Sicupira em 1968, e à paixão pelo Athletico, Moser articula a narrativa usando métodos semelhantes aos que o diretor polonês Zbigniew Ziembinski utilizou para levar aos palcos o complicado texto Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, e mudar para sempre a estética do teatro brasileiro. Ziembinski construiu o palco em planos diferentes, com elevados ao fundo, para estabelecer passado e futuro na ação dramática.

Moser lança mão de uma jogada que não tinha como dar errado. Coloca a voz do Sicupira presente em destaque, à frente do texto em declarações, máximas e causos que só o “tio Barcímio” seria capaz de narrar, em sua prosa charmosa e repleta da malandragem que lhe é peculiar, e que foi levada ao rádio e à televisão nas últimas quatro décadas.  Quem conhece Barcímio Sicupira parece ouvir sua voz. Assim, o livro ganha vida própria, e o que segue é a leitura mais deliciosa já realizada em uma biografia que tenha como tema principal o futebol.

Não deixando barato, toda história do Brasil e do mundo vêm no pacote proposto por Moser. Nada passa despercebido. Afinal, Sicupira, como diria o locutor antigo, “conhece porque esteve lá”. Os panos de fundo vão da Segunda Guerra, passam pelo golpe de 1964 e o AI-5, percorrem minúcias de celebridades diversas com as quais o “craque da 8” conviveu, até chegar ao inusitado ano da covid-19, em que quis o destino vir à luz esta obra.

Quem não conhece Barcímio Sicupira Junior, tampouco Sandro Moser, agora tem a chance. Como diz o autor: “quem não bebeu uma garrafa de vinho com Sicupira, não conhece Curitiba”.

O fato é que além da vida do maior craque que já pisou gramados paranaenses ter vindo à tona finalmente, há algo mais importante acontecendo a quem tem olhos pra ver. Certa vez, um jornalista cujo nome não me ocorre — e não vou me dar ao trabalho agora —, escreveu algo mais ou menos assim, sobre o grande Lester Bangs: ia ser difícil à academia americana engolir que o escritor estadunidense mais importante naquele momento escrevia apenas resenhas de música em jornal e biografias de roqueiros cabeludos.

É certo que a academia brasileira vai continuar alheia, muito provável. Mas feito zagueiro na hora do escanteio, devia estar um tanto mais atenta. Porque o cara por aqui já bateu o pênalti e correu pro abraço. E o cabeludo em questão ganhou a melhor biografia que alguém poderia ter lhe dedicado. Com o refinamento da Jovelina dentro do João Gilberto, sacada pelos apaixonados amantes do primeiro parágrafo.  Um brinde.

Sicupira – Vida e Obra de um Craque Chamado Barcímio, de Sandro Moser (Banquinho, 2020)

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Fotos: divulgação/reprodução