O que você quer ser quando crescer?


Sempre amei o Programa do Jô.

Ah! Quantas brigas para ficar até tarde acordada assistindo ao Jô e depois dormir no sofá da sala…

Com o Jô eu ri e chorei, eu aprendi e senti raiva, eu senti tédio e me inspirei. Eu imaginei coisas e eu me imaginei lá; na plateia, assistindo de pertinho; como convidada, sendo entrevistada; ou até lá na frente, no palco, atrás da mesa, sendo“o Jô”.

Também sempre amei ler. Especialmente os gibis – da Turma da Mônica.

Tive uma coleção enorme que ocupava quase toda a minha parte do armário da sala do apartamento do Manhattan, na Brasílio Itiberê – o que me rendeu desde muito cedo o apelido que meu pai me deu (e que me chama até hoje): “Gibi”.

Prova incontestável de que eu estava o tempo todo com um gibi aberto, lendo e relendo. Ou um livro. Ou folhas sulfite, dando vida ao meu próprio gibi, meu próprio livro, minha própria história.

E eu amava ainda conhecer pessoas novas.

Era chegar em um lugar novo e pronto! Em cinco minutos eu estava não só enturmada, como também sabendo tudo da vida da pessoa (ou das pessoas) que conheci.

Lembro particularmente de uma vez que fomos para o Candeias de Guaratuba. Tempo ruim, nenhuma criança por perto e muitos idosos jogando bocha (eu não fazia nem ideia o que era bocha). Imagine se em dois tempos eu já não estava lá, enturmada e craque no jogo?!

E logo muito cedo em alguma reunião de família alguém soltou um “essa menina vai ser jornalista!” E eu comecei a gostar da ideia. E eu fui, apaixonada. Me formei jornalista, aos 21 anos.

E você? Se lembra de quando era criança, o que queria ser ou o que as suas habilidades diziam que seria quando crescesse?

Se dê um tempo para pensar. Aqui não temos pressa para chegar ao fim da página, ao fim do texto, ao fim da conversa. Tome um chá.

Bom, minha história poderia ser linda com anos de experiência dentro do jornalismo e fim. Mas a verdade é bem menos romântica e me formei querendo distância da profissão… Pelo menos por um tempo.

Acho que existiam outros “eus” dentro de mim que queriam se realizar. E eu? Respondi ao chamado e fui realizá-los. Marketing, comercial, terceiro setor, empreendedorismo social, empreendedorismo, negócios, academia, internacionalização, consultoria, gestão de comunidade… Morar fora, morar sozinha, encontrar alguém, ter cachorros…

Só muito recentemente fui descobrir que eu não estava sozinha nessa jornada e que até existe um nome para essa gente que não para quieta: os multipotenciais. (Se você se identifica de alguma forma com essa ideia, corra assistir o TED Talk da Emilie Wapnick, “Por que alguns não têm uma vocação específica”. Se você não se identifica, corra assistir também!)

Nele, a Emilie explora um pouco da lógica do T do conhecimento; o topo do T são os nossos conhecimentos generalistas (conhecemos um pouquinho de muitas coisas) e a perna do T é o nosso conhecimento especialista (conhecemos muito de uma coisa só). Algumas pessoas têm o topo mais largo e a perna mais curta, vice e versa ou tudo mais equilibrado.

A grande questão é que fomos ensinados que o certo, ou o “normal”, era um belo T com o topo bem curtinho e uma perna longuíssima. Escolha uma profissão (de preferência uma daquelas bem estabelecidas, que dão muito dinheiro), se agarre a ela e nunca mais olhe para trás. Ou para os lados. Sempre avante (e a fundo)!

Depois de muito sofrer com isso, hoje entendo perfeitamente que a melhor coisa, o natural, é cada um ser o que quiser ser. Vou repetir, gritando mesmo: A MELHOR COISA É CADA UM SER O QUE QUISER SER (dentro dos limites da ética e do respeito, claro!).

Então, tenho abraçado e tentado (vou ser sincera, nem sempre é fácil) dar vazão a minha multipotencialidade. E espero que outros multipotenciais façam o mesmo. E que os especialistas abracem e deem vazão a sua especialidade também.

E você? O que se tornou depois que cresceu? Para onde suas habilidades te levaram?

De novo, se dê um tempo para pensar. Tome mais um chá.

Enquanto isso, ouço a música A Criança que Eu Fui um Dia, do Reverb Poesia: “Se a criança que você foi um dia viesse te visitar, será que ela se reconheceria?”

Já me peguei diversas vezes, em diversos momentos da vida pensando e repensando como seria esse encontro. Já imaginou? Tem até um filme da Disney que ilustra uma perspectiva desse encontro mágico: Duas Vidas, com o Bruce Willis. Sempre rio na cena do cachorro e sempre choro quando ele adulto diz “it’s not your fault” para ele criança (não é culpa sua).

“Essa criança não marcou hora
Na minha agenda lotada de desculpas
Não pediu licença
Simplesmente abriu a porta e veio me visitar” (A Criança que Eu Fui um Dia,Reverb Poesia)

Gosto muito de pensar que a primeira pergunta que as crianças que fomos um dia nos faria é: “Você continua brincando e explorando o mundo e tudo a sua volta?”

Não posso garantir que elas gostariam do que iam ver e ouvir. Mas acho que pelo menos nesse ponto, estou fazendo o meu melhor. E você?

Ah! Uma dica: eu acho que elas não nos julgariam tanto quanto nos julgamos no presente…

“E como quem fala
Ei, você não tá mais de castigo
Ela me olhou e disse a coisa mais séria que eu já ouvi
Você quer brincar comigo?” (A Criança que Eu Fui um Dia,Reverb Poesia)