Alçada à condição de epidemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a obesidade é classificada como uma doença crônica, progressiva e recidivante. 500 milhões de adultos estão na faixa da obesidade e 1 bilhão acima do peso no mundo. No Brasil 20% da população está obesa e 60% acima do peso. Em relação às crianças, as estatísticas também são preocupantes: 40 milhões de crianças até 5 anos estão acima do peso no mundo. E, para piorar, os números estão em elevação. O diagnóstico médico é realizado a partir do cálculo do IMC (índice de massa corporal), que divide o peso da pessoa pela sua altura elevada ao quadrado. É considerada obesidade quando o IMC é igual ou maior a 30kg/m²; e entre 25 e 29,9kg/m² sobrepeso. A principal característica da obesidade é o excesso de gordura corporal, mas são muito importantes as complicações decorrentes desta condição, como diabetes, hipertensão, apneia do sono, câncer e fatores psicológicos, todos associados a uma diminuição da qualidade e expectativa de vida.
Diferente da medicina, para a psicanálise a obesidade não é um diagnóstico em si e a investigação vai no sentido de buscar o que está provocando esse tipo de resposta ou condição no sujeito, isso se a obesidade for uma questão para ele, pois trata-se de escutar os efeitos que ela provoca na vida e na subjetividade. É preciso levar em consideração que cada quadro é único e depende de uma série de fatores como as determinações genéticas, alterações endocrinológicas e metabólicas. Dependendo do caso, a obesidade pode ser considerada um sintoma do ponto de vista psicanalítico e a proposta deste texto é uma leitura deste tipo de manifestação, fazendo uma articulação com questões culturais contemporâneas. Além dos fatores biológicos e sociais, para a psicanálise a constituição subjetiva e as relações familiares são de grande relevância para se estabelecer um diagnóstico diferencial e um desenho dos quadros com o quais nos deparamos na clínica.
Para os seres humanos, o ato de se alimentar vai além de adquirir os nutrientes necessários para a sobrevivência e é inerente à própria história, sendo parte importante dos rituais e identidades culturais, onde o compartilhamento e as relações são intrínsecos. Quando nos sentamos à mesa numa comemoração ou participamos de uma festa, o que presenciamos é uma alternância: come-se, bebe-se, fala-se, olha-se, escuta-se música, brinca-se, levanta-se, come-se de novo e, assim, sucessivamente. É nos intervalos entres as ações que há espaço para a presença do outro e para o aparecimento do sujeito; as diversas pulsões parciais (oral, anal, escópica, invocante) são colocadas em movimento, também, de alternância ao acionarmos nossos sentidos do paladar, audição, olfato, tato e visão. É corpo e psíquico. E como o objeto da pulsão é parcial e ela não pode ser saciada completamente, o que realizamos é um funcionamento metonímico. Mas, e quando ocorre uma fixação aguda num objeto de satisfação, quais são as consequências?
Existem dois conceitos em psicanálise que estão intimamente articulados: pulsão de morte e gozo. No texto “Além do princípio do prazer” (1920), Freud desenvolve uma compreensão, a partir do trabalho clínico e do estudo da cultura, que vai produzir uma verdadeira revolução teórica e prática na psicanálise: existe um impulso no humano que, impossível de ser aliviado completamente, pode levar o sujeito a se fixar num modo de descarga que o conduz à uma compulsão à repetição perturbadora. A finalidade de toda pulsão é a descarga, ou seja, encontrar uma satisfação para esta força que impele o sujeito promovendo um desassossego, provocando uma tensão. A pulsão está na fronteira entre o psíquico e o somático, define Freud. É, portanto, a ligação de algo da sexualidade com uma representação psíquica, produzindo uma erotização do corpo. Mas, por mais que o sujeito encontre objetos para sua satisfação, a pressão que a pulsão exerce é constante, endógena e sempre sobra um resto que é impossível de ser satisfeito. Se esse impossível se liga a um único modo de obter satisfação, produz-se uma fixação, uma condensação da energia libidinal em um único ponto, e daí temos um problema. Esse fenômeno produz um looping em que os resultados podem ser muito sérios, pois ocorre um desligamento de outros modos de satisfação e uma redução do universo daquele sujeito. Isto faz com que essa força, a pulsão de morte, que em outras configurações poderia ser criativa, empurre o sujeito para uma destruição que se manifesta desde pensamentos autorecriminadores até atos levados às últimas consequências. Podemos, aqui, articular o conceito de gozo, proposto por Lacan, que diz respeito à uma fantasia de uma satisfação plena em que um objeto daria conta de recobrir toda falta de nossa existência, eliminando toda a angústia, como se fosse possível. Lacan fala em duas modalidades de gozo, uma que é estabelecida no laço com o outro, em que mostramos o nosso modo de demandar e de estar na relação, e que abrange um desencontro. A outra modalidade diz respeito aos nossos excessos, aquilo que não leva a nada, não faz dialética, que é traumático e não pode ser nomeado. Em última instância, a pulsão de morte fala da contradição humana entre o eu e o não-eu, construção e destruição, civilização e selvageria, satisfação e gozo mortífero etc.
Retornando à questão da obesidade, aquela compreendida como um sintoma para a psicanálise, e que apresenta como páthos a relação compulsiva com a comida, podemos fazer uma análise das diversas condições envolvidas neste quadro, desde fatores subjetivos e constitutivos até problemáticas culturais que são produzidas por um determinado discurso. Lembrando que nem toda obesidade apresenta um transtorno de compulsão alimentar, mas é muito comum que pessoas que apresentam este transtorno se tornem obesas devido à alta ingestão de calorias.
Para nos constituirmos como sujeitos de desejo é necessária a relação com um outro primordial, que numa dialética de presença e ausência vai permitindo um reconhecimento da nossa imagem refletida no espelho através de uma nomeação, o que vai permitir a sensação de unificação do corpo fragmentado de outrora. Porém, as experiências vivenciadas antes mesmo de se completar a mielinização neuronal, período em que temos pouco controle do próprio corpo, deixam marcas, traços mnêmicos que foram carregados de satisfação ou de angústia. Essas experiências iniciais podem determinaras formas de relação de um sujeito, as modalidades de gozo e se reatualizam nas vivências posteriores, na maneira como vimos e sentimos nosso próprio corpo e em como imaginamos que somos vistos pelo outro.
Na sociedade contemporânea o corpo ocupa um lugar de destaque, onde a imagem é privilegiada e formas corporais específicas são cultuadas (magro, “sarado”), favorecendo a emergência de estereótipos para aqueles que não correspondem aos padrões estabelecidos. O discurso de “vida saudável” também possui suas nuances, pois ao mesmo tempo em que favorece a saúde, impões exigências muitas vezes impraticáveis. O avanço da medicina estética e de tratamento da obesidade também ocupa um lugar no discurso social, oferecendo “correções” a esses sujeitos desviantes da norma. O olhar do outro passa a ser de julgamento e de sentenciamento da exclusão social. Esses elementos podem contribuir para a instauração de um circuito que se repete “ipsis litteris”, ou seja, sem a introdução de nada novo: a exigência estética representada por um olhar superegóico que produz um sentimento de inadequação, agravando uma frustração e levando à compulsão como forma de aplacar a angústia, gerando mais frustração e, assim, sucessivamente.
Simultaneamente ao discurso da vida saudável e de corpo desejável existe uma oferta infinita de objetos para a satisfação oral, como nos mostra as redes de fast-food, aplicativos de delivery e a diversidade de produtos industrializados, causando um verdadeiro paradoxo; esse prazer pode ser acessado de forma direta, trazendo satisfação imediata e, por isso, é tão poderoso. Mas independente dos elementos, seja o corpo sarado ou o junkfood, o formato dos discursos é o mesmo: Goze! Sem moderações. Um imperativo que impele o sujeito à tirania do Outro. E quando não consegue corresponder aos ideais sociais, é fracassado graças à sua própria incompetência. É um funcionamento nos moldes neoliberais em que cada um gere seu próprio Eu como se fosse uma empresa e os laços sociais são dispensáveis, o olhar do outro é recortado do conjunto atuando de maneira autônoma. Se obtém sucesso, o sujeito é destacado como prova de que o modelo funciona, já diante do fracasso cada um que se vire, não se esforçou o suficiente. Essa lógica reativa o ciclo de repetição citado anteriormente.
As implicações subjetivas desta norma aparecem na clínica somadas às identificações aos significantes que o sujeito recebe e que o acompanham por muito tempo. É comum que adultos obesos tenham sido crianças com sobrepeso, o que não passava despercebido como mostram apelidos e comentários que escutavam, os dedos apontados e situações de discriminação. E o que o outro deseja é o emagrecimento, pois olhar o corpo obeso traz o incômodo da materialização de que os ideais não se sustentam.
Mas separar-se das representações dadas pelo outro e renunciar ao objeto de gozo é muito difícil, por isso tantos recorrem à uma intervenção cirúrgica, que pode ser benéfica nos casos indicados e com o devido trabalho psíquico, caso contrário as consequências podem ser graves, já que a cirurgia não trata a compulsão. É preciso tratar a fixação do sujeito no significante que o determina, para que possa vir a encontrar outros e sair da petrificação. Nos casos de obesidade extrema, podemos verificar como a vida do sujeito vai, progressivamente, se reduzindo a poucas atividades e relações. Muitos deixam de trabalhar, atividade que passa a ser incômoda do ponto de vista ergonômico e das relações com colegas; abandonam os estudos; deixam de investir nas relações amorosas; não conseguem brincar com os filhos, já que a mobilidade fica muito limitada; assim como praticar esportes; se afastam de amigos e grupos; enfim, limitação que produz uma encapsulação do sujeito, um isolamento que contribui ainda mais para a cronificação da relação com a comida.
Frequentemente escutamos na clínica relatos de episódios em que o sujeito come escondido, por vergonha ou para não ter que dividir o alimento. Nesses momentos, o que é produzido é a exclusão do outro ou do olhar acusador, ao mesmo tempo em que a relação com o objeto ultrapassa a linha da satisfação para entrar no campo do excesso, em que o sujeito é consumido pelo objeto, e não o contrário, perdendo sua autonomia para a compulsão, num ato sem regulação simbólica. Ou, como diz a psicanalista argentina Silvia Amigo: “Trata-se de uma comida clandestina, sem laço social, sem palavra, sem nenhum cuidado com a cena”. Nos momentos caracterizados pelo descontrole, dispensam-se os rituais, não se arruma a mesa, não se compartilha, não há preparação, come-se coisas estranhas, que não combinam, sem prazer, até alimentos frios e, principalmente, hipercalóricos. O sujeito tem muita dificuldade em parar, colocar um basta nos episódios e, muitas vezes, experimenta uma sensação de dissociação, não se reconhece e pode ter um estranhamento em relação ao próprio corpo. Esses episódios geram muita culpa e frustração, ódio ao corpo e podem levar a um excesso de controle que gera angústia e antecede o próximo episódio compulsivo.
Nessas patologias do ato, que buscam prazer imediato excluindo a cultura e o outro, a psicanálise exerce uma função que pode trazer um diferencial, pois esses sujeitos apresentam dificuldades de contar uma história sobre o seu corpo e seu comportamento: quando os sintomas se desencadearam? Qual a relação com experiências que o marcaram? O quanto se sentem sozinhos? Que conflitos internos o atormentam? Qual a sua posição nas relações familiares? E o relacionamento com a função materna, como se dá? No filme “Preciosa-uma história de esperança” uma das temáticas é a relação devastadora que a protagonista tem com a mãe, em que sofre todo tipo de abuso e fica à mercê de um imperativo sobre a alimentação, desaparecendo como sujeito de desejo; porém, é numa outra relação com uma figura feminina que pode estabelecer um outro olhar sobre si. A psicanálise também pode, quando o sujeito se interroga sobre a compulsão, auxiliá-lo a construir uma história, a partir de um laço discursivo: o transferencial.
Em um impasse entre os mandamentos superegóicos, um de adequação aos ideais estéticos e outro de uma obrigação de comer, o sujeito produz seus efeitos no corpo e a obesidade é um deles. Assim, a inscrição simbólica da falta pode ser uma alternativa à promessa capitalista de que “o objeto” da satisfação existe e que está acessível. A satisfação sendo sempre parcial nos mostra que“…é o prazer que introduz no gozo seus limites, o prazer como uma ligação da vida…” diz Lacan. O prazer comporta um resto insatisfeito e a emergência do desejo; para tanto a alternância dos objetos faz essa função, reinstaurando os intervalos que desaparecem na compulsão e, principalmente, reestabelecendo o laço com o outro e a dialética implicada nele.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Saflate, V., Junior, N.S., Dunker, C. (org.) (2021). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Belo Horizonte: Autêntica.
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