De trajetória não raras vezes marcada pelo escândalo, morte do polêmico cineasta, intelectual e escritor ainda guarda mistério. Suposto autor do crime levou segredos para o túmulo
2 de novembro de 1975, perto da meia-noite. Na Piazza dei Cinquecento, em Roma, um Alfa Romeo Giulia 2000 GT Veloce ronda sorrateiro, onde fazem ponto diversos michês. Na estação Tremini, em um dos lados da praça, o jovem Pino Pelosi, 17 anos, é escolhido para acompanhar o homem que dirigia o automóvel.
Pelosi tem fome, e eles param comer em um restaurante. O garoto engole uma massa observado pelo homem. Ele propõe que se dirijam a Ostia, balneário há coisa de 25km da capital italiana.
O Alfa Romeo para na areia da praia, em um lugar deserto. O homem faz sexo oral no garoto. Queria mais. O jovem relutante recusa e sai do carro. Ao qual é perseguido. Em luta corporal o homem é agredido a chutes e pauladas pelo jovem que, de posse da chave do carro, sai dirigindo em fuga, atropelando o corpo deitado, por sobre o tórax.
Pelosi tem antecedentes criminais, por assalto e roubo, e dirige em alta velocidade. Sem perceber, está na contramão de uma rápida, ainda em Ostia. É parado pela polícia, depois preso por roubo do automóvel.
Na manhã seguinte, os jornais dão conta da morte do cineasta Pier Paolo Pasolini, cujo corpo é encontrado nas areias do balneário de Ostia, e a coisa se complica para Pino Pelosi. Havia sangue em suas roupas. Ele confessa o crime.
Alguns dias depois, em 23 de novembro, no Festival de Cinema de Paris estreava Saló – 120 Dias de Sodoma, o último filme do cineasta, professor, escritor, ensaísta, dramaturgo, tradutor e poeta. Pasolini definia-se antes de tudo pelo último epíteto.
Pier Paolo Pasolini nasceu em 1922, em Bolonha. Passou a infância e adolescência trocando de moradia e cidade, dada a carreira militar do pai, Carlo, um tenente de infantaria do exército fascista de Mussolini, regime sob o qual crescera o jovem. Autoritário e prepotente, descendente de nobres da România, o conflito paterno se deu desde muito novo, com desdobramentos que seriam aclarados mais tarde, sob leitura de Freud.
Com a mãe, também oprimida pelo fascismo do marido, a relação era de afeto e reverência, como reza o bom italiano. Pasolini viveu com ela até sua morte, naquela fatídica noite em Ostia.
De volta a Bolonha próximo da idade adulta, Pasolini graduou-se em Letras, tornou-se, por natureza, antifascista e comunista. Tomou contato com Gramsci e sob a ideia do “intelectual como linha de frente” proposta pelo fundador do PCI, passou a dar aulas. Prodigiosamente ganhou destaque com seus poemas e ensaios nos jornais locais. Segundo Luiz Nazário, historiador especialista em cinema e estudioso da obra de Pasolini, a morte do irmão Guido — em um irônico conflito no qual atuava pela Resistência contra um grupo de guerrilheiros nacionalista do marechal Tito — despertou no artista o ideal que confere ao revolucionário “a pureza mítica ligada aos ideais”. Talvez por isso mesmo Pasolini se auto definia antes de tudo como poeta.
Descobriu-se homossexual pela mesma época, através de psicanálise, e principalmente autoanálise. Em 1949, sob os escombros da Segunda Guerra, Pasolini envolve-se em um escândalo que moveu Bolonha e todo Friul. Um aluno, ao confessar-se ao padre local, revela ter tido relações sexuais com o professor. O pai cai em desgraça e Pasolini ruma com a mãe para Roma.
Na Cinecittá, encontra a linguagem ideal para aquilo que entendia como a poética organizada, ainda segundo Luiz Nazário: “com elementos gramaticais de função poética, presença sensível da câmera e da montagem (…) chama a este cinema de ‘cinema de poesia’, em oposição ao cinema narrativo tradicional”.
Ao escalar seus elencos, Pasolini recorre na maioria das vezes a “não-atores”. Escolhe gente do povo, camponeses, artistas da música como Maria Callas e comediantes como Totó. Para o papel de Jesus Cristo em O Evangelho Segundo São Matheus (1964) aventou Jack Kerouac (acabou optando por um desconhecido estudante espanhol, Enrique Irazoqui) e coloca a própria mãe no papel da Virgem Maria. O filme foi um sucesso e o reaproxima da igreja. O Jesus proletário de Pasolini caiu como uma luva ao ditame que reza “todo italiano é marxista e católico ao mesmo tempo”. Vemos aqui nessa alegoria a presença de Gramsci novamente. O artista, o intelectual agindo dentro do sistema pela revolução.
Fanático torcedor da Associazone Sportiva Roma, comparecia aos jogos com frequência. É de Pasolini a ideia (pensada) de “futebol-arte”. Após assistir à derrota da Itália para o Brasil de Pelé em 1970, determinou em uma crônica para o jornal Il Giorno que na Europa se pratica o “futebol de prosa” e que o futebol praticado na América do Sul era o “de poesia”.
Não é preciso dizer que um intelectual à moda de Pasolini era perseguido por setores da sociedade que iam desde a Igreja até o corpo parlamentar da democracia-cristã, que imperou na Itália pelo bem do modo de vida pequeno-burguês, tudo que o poeta tanto detestava. Ainda, tal e qual, não era visto com bons olhos pelos stalinistas do PCI e tampouco pela Máfia.
Feito o anjo do Teorema (1968), seu filme mais reconhecido, Pasolini foi o artista que adentrou o seio da família mais tradicional e — com consentimento — acabou por deflorar a todos os seus membros, transformando conceitos antes perenes e imutáveis. Levou ao pé da letra o ideal do artista como agente da revolução. E ainda deixou Saló… de lambuja, expondo o fascismo ainda inerente ao ser humano, escandalizando como era do feitio.
Após a confissão, Giuseppe “Pino” Pelosi foi julgado e condenado como o único assassino de Pasolini. Mas a própria polícia já sabia que houve presença de pelo menos mais três pessoas na cena do crime na praia de Ostia. Menor de idade, pegou nove anos e meio de prisão. Em 2006, resolveu abrir a boca sobre a participação de outras três pessoas que mataram Pasolini a pauladas, alegando que ele apenas empreendeu fuga no automóvel, atropelando o corpo do poeta já desfalecido. Foi condenado mais tarde por outros delitos menores como roubo e tráfico, ganhando liberdade definitiva em 2009.
Até hoje a família de Pasolini acredita que sua morte teve mandatários e que as motivações foram de natureza política.
Em 2015, o caso foi arquivado definitivamente. Pelosi morreu de câncer em 2017. Levou o mistério do assassinato de Pier Paolo Pasolini para o túmulo.
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Leia. Ouça. Assista:
Pier Paolo Pasolini: Orfeu na Sociedade Industrial – de Luiz Nazário. Ed. Brasiliense, 1982
Todos os Corpos de Pasolini, de Luiz Nazário – ed. Perspectiva, 2007
Pasolini, filme, de Abel Ferrara. 2014. Globoplay
Pasolini, um Delito Italiano, 2004, Marco Tulio Giordana.
Via Pasolini – de Andrea Salerno, 2005. Completo. Em italiano.
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