Quem sabe eu nem exista


AGOSTO DE 2002. Não estava tão quente quanto achou que ia estar. E tinha razões de sobra para achar isso, pois apesar de ser ainda inverno, ela encontrava-se em plena Copacabana.

“Entre o poxxto 5 e o forrrte”, como disse sua amiga tirando onda do sotaque carioca, com o qual convivia diariamente desde que se mudou para o Rio, há quase um ano. A amiga, ela e o namorado da amiga jantavam num restaurante ali pertinho, de frente para o mar. Não demorou muito e o moço fez a pergunta que todos faziam. Não, não é uma homenagem à pastilha. Meu nome veio de uma modelo lá de Belo Horizonte que fazia muito sucesso quando nasci.

Já instalada no quarto de hóspedes do apartamento da amiga, Valda atirou-se na cama para se levantar em seguida. Estou a duas quadras do mar e vou dormir de ar-condicionado ligado e janela fechada? Nada a ver, ela pensou, certa de que uma janela aberta no sexto andar não significava risco nenhum.

Assim que deslizou lateralmente a lâmina de vidro, sentiu um arzinho agradável entrar no quarto. Por ser tão perto da orla e ficar numa esquina (da Raul Pompeia com a?… Souza Lima, isso), o apartamento era bem ventilado. Seria até mais, não fosse o morro ali à direita, sob o qual a boca de um túnel cuspia poucos carros àquela hora da noite. Mas o que é aquilo, meu Deus?

15 MINUTOS ANTES – A cerca de 5 quilômetros dali, um grupo deixou a sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise, após o término de uma solenidade. Depois de desgrudar seu carro do meio-fio da estreitíssima rua Davi Campista e ligar o rádio numa emissora de notícias (ele não era de ouvir música), o psicanalista Land virou à direita na Barata Ribeiro e entrou no túnel Sá Freire para acessar a Raul Pompeia, já em Copacabana. Atento ao comentarista que analisava as eleições presidenciais que se avizinhavam, em nenhum momento Land percebeu que estava sendo seguido.

34 ANOS ANTES – Taiguara tinha acabado de vencer um dos maiores festivais realizados no país na chamada Era dos Festivais, o “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior. Venceu com “Modinha”, canção composta por Sergio Bittencourt, prêmio que foi dividido com a música “Ultimatum”, dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle.

Quando ainda escolhia um lugar em sua casa onde deixar o troféu, Taiguara foi procurado pelo músico e compositor Jacob do Bandolim, pai de Sergio Bittencourt. Jacob estava entre os jurados de um outro festival que aconteceria em seguida, desta vez na TV Tupi. Os organizadores tinham dado a ele a missão de convencer Taiguara a participar da competição defendendo a música talvez mais difícil entre todas as classificadas.

Lenta, longa, com letra enorme e triste, “Helena, Helena, Helena” era totalmente fora dos padrões dos festivais. Além disso, ninguém nunca tinha ouvido falar do autor, um estudante de engenharia química.

Identificado até então como cantor romântico, Taiguara aceitou o desafio e a música composta pelo desconhecido Alberto Land foi proclamada a vencedora daquele festival.

33 ANOS ANTES – O concurso Miss Objetiva, espécie de Miss Brasil e Miss Universo paralelo que premiava a fotogenia das concorrentes, teve entre as centenas de inscritas desse ano uma candidata considerada imbatível. E não deu outra. A belo-horizontina Valda Maria Franqueira, estudante de medicina e modelo publicitário, faturou a seletiva nacional e também a internacional.

Entre as viagens que ganhou como prêmio, Valda esteve em Los Angeles, onde recusou um convite para fazer cinema. Além de estampar capas de várias publicações brasileiras e ser eleita “a mais bela estudante do Brasil” no programa do Chacrinha da TV Globo, ela foi protagonista de uma fotonovela publicada na Sétimo Céu, uma das revistas mais populares do país.

As fotos do folhetim “Helena, Helena…” foram feitas em Hollywood, e nela Valda fez par romântico com um desajeitado dublê de ator. O roteiro era inspirado na música de mesmo nome, por isso algum gênio teve a ideia de convidar o cantor Taiguara para uma participação especial. Sorte da música brasileira, e também da dramaturgia, que ele nunca mais fez nada parecido com aquilo.

DE NOVO AQUELA NOITE – De dentro do automóvel que ultrapassou e fechou bruscamente o carro dirigido por Alberto Batista de Castro Land, saltou um homem com o braço direito esticado na direção do para-brisa do automóvel do psicanalista. Atônita, Valda ouviu cinco disparos e dois gritos. Uma moto parou ao lado da cena e o atirador subiu na garupa. Antes da moto acelerar, foram mais dois tiros e outro grito. Por uma fração de tempo, Valda acompanhou de ouvido a moto sumindo gradualmente, até que restasse naquela esquina apenas o trágico silêncio.

OUÇA

No link a seguir você ouve a música “Helena, Helena, Helena” como Taiguara a apresentou no I Festival Universitário da Canção Popular de 1968. O arranjo é do maestro Lindolfo Gaya, que depois seria o arranjador de quase todos os discos de Taiguara.

NOTAS ADICIONAIS

“Helena, Helena, Helena” foi regravada oito vezes só em 1968. Ao longo de 15 anos, Alberto Land teve meia dúzia de músicas lançadas em disco por cantores nem sempre conhecidos, mas não conseguiu mais chegar nem perto do sucesso de sua primeira canção. Talvez por esse motivo, em determinado momento desapareceu do meio artístico e se recolheu à carreira de engenheiro químico. Aposentou-se como engenheiro pela Petrobras. Era também formado em psicologia, tendo se tornado psicanalista depois de aposentado.

Alberto Land tinha 57 anos de idade quando foi assassinado nas esquinas das ruas Raul Pompeia e Souza Lima, em Copacabana, na noite de 5 de agosto de 2002. Segundo o delegado que registrou a ocorrência, como nada foi roubado, os indícios apontavam para um crime passional. Pelo que consegui apurar, até hoje nada foi esclarecido.

Existe uma lenda de que a música “Helena…” foi inspirada em uma profissional do sexo que atendia em Belo Horizonte e era muito famosa naquela época; Alberto Land teria conhecido essa mulher em uma viagem à capital mineira. Aqui entra a informação que obtive diretamente com Adonis Karan, realizador dos festivais “O Brasil Canta no Rio” e do Festival Universitário da Tupi, além de vários outros, como os MPB Shell da Globo. Segundo Adonis Karan, Land contou a ele que a música falava de uma mulher por quem o compositor tinha se apaixonado.

Valda Maria Franqueira de Mendonça é hoje uma das mais conceituadas pediatras de Belo Horizonte.

FOTOS:

Rua Raul Pompeia esq. Souza Lima, Copacabana, RJ, em imagem captada no Google Maps.

Taiguara (1970), foto de divulgação.

Valda Maria Franqueira, foto sem crédito, publicada na revista O Cruzeiro de 30/10/1969.

Alberto Land (possivelmente 1968), foto sem crédito tirada do site todoteatrocarioca.com.br.