Recriar a economia: circular a riqueza ao invés de pessoas e vírus


Estou isolado em casa há dias. Apesar de meu trabalho de pesquisador exigir normalmente uma reclusão frequente – sou doutorando em Antropologia Social –, não tem sido fácil saber que lá fora (não) tem gente que precisa sair para trabalhar e que tem outras que precisariam se proteger melhor. Isto tem me perturbado muito: o grande risco à saúde de uns quando comparado aos privilégios que, por exemplo, me permitem uma boa proteção. Corrói-me a dor daqueles que não estão conseguindo se cuidar bem e daqueles que não podem enterrar dignamente seus parentes. Nem o luto de forma socialmente adequada, necessário para equacionar a perda de um ente querido,os italianos podem executar agora.

O mundo tem me parecido estranho, mesmo eu tocando a minha vida mais ou menos do jeito que ela é. O que mudou drasticamente para mim foram as idas à universidade e aos supermercados, mas o universo não se reduz à minha própria experiência. A vida transformou-se muito mais nos últimos dias, e, para ninguém,quero a mudança que certamente deve ser a pior de todas, a saber, a irreversibilidade da morte. Toda via tem gente que, infelizmente, acredita que há situação pior, que crê ser pior a baixa da produtividade.

O presidente Jair Bolsonaro e o proprietário do Madero, Junior Durski, são duas pessoas exemplares desse conjunto que, se não acha possível mensurar o valor da vida, submete-a ao valor econômico. Permitam-me relembrar falas recentes de ambos.

 

Jair Bolsonaro, em entrevista ao apresentador Ratinho, disse:

 

“Vai morrer alguns de vírus? Sim, vão morrer. Alguns porque já tinham alguma deficiência [doença pré-existente], outros porque serão pegos no contrapé. Lamento. Minha mãe de 92 anos, se pegar algo, acho que nos deixa. Mas não podemos criar esse clima todo que está aí, prejudica a economia”.

 

Por sua vez, Junior Durski falou por meio de um vídeo compartilhado no Instagram:

 

“O Brasil não pode parar dessa maneira. O Brasil não aguenta. Tem que ter trabalho, as pessoas têm que produzir, têm que trabalhar. O Brasil não tem que essa condição de ficar parado assim. As consequências que teremos economicamente no futuro vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com o coronavírus”

 

Diante disso, a reflexão a ser feita é sobre os valores que orientam a cada um de nós e, se atestado que a economia é mesmo mais relevante, sobre a quem deixaríamos a seleção das vidas a serem ceifadas. Na hipótese de alguns poderem morrer, deixaremos as estatísticas ao acaso da rede de transmissão do vírus? Mas o aleatório não existe sem contingência social. Para o vírus circular é preciso que pessoas se movam e não se protejam bem. A dúvida que resta é: quem são os que têm as melhores condições para impedir a infecção? Trata-se, portanto, das condições reais para se livrar desse agente e viver, mas, lembremo-nos, o modelo de sociedade em que vivemos é tão estruturalmente desigual que muitas vezes falta água potável para lavar-se. Não damos igualmente nem o mínimo que existe para combater a covid-19.

Portanto, se algo tem que mudar, que mude a estrutura sobre a qual se assenta o compartilhamento de riquezas para que a vida continue a ser vivida, principalmente, com segurança. Que o modelo econômico se curve para que a vida não tenha sabor de sofrimento de viver pessimamente ou tenha o gosto da saudade da perda. Eu quero dizer claramente que até o momento estamos discutindo se nos isolamos ou não nos isolamos, mas não aprofundamos a análise sobre se a solução não seria um melhor equacionamento da distribuição econômica para que as dificuldades do isolamento não pesem tanto mais para aqueles a quem a vida já pesa.Indago sobre a possibilidade de mudarmos os termos que, nesta semana,redesenharam o problema do coronavírus centrando atenção preferencialmente sobre os auxílios que os governos estão elaborando e sobre o que subjaz a motivação do presidente e certos empresários.

É o caso de inundar o debate acerca do quão profundas devem ser as soluções econômicas ao invés de nos recolocarmos em movimento. Coloquemos luz sobre o quão forte deve ser o Estado para preservar as condições da vivência reclusa, tida como imprescindível para preservar o existir. Suponho que o aspecto econômico da crise é menos sobre falta de dinheiro e mais sobre certos pressupostos na produção que Jair Bolsonaro deseja em pleno vapor. Qual o dever do Poder nessa relação entre vida e economia? Neste instante, alguns não se importam com a morte do outro; importam-se com a manutenção das operações econômicas tal qual são no capitalismo.Então eu devolveria a perguntar para esses que preferem a questão por esse desumano viés. Pensemos a economia junto com a vida – como propôs o presidente brasileiro na frente do Palácio do Planalto –, entretanto discutamos se o estrangulamento emergencial não deve ser sobre os altos lucros de determinados setores, ou ainda, se a economia de que ele fala não tem sentido ideológico. Falemos de economia, contudo não nos termos da elite predatória. É momento de decidirmos em que aspecto do nosso modo de viver queremos injetar criatividade.