Rogério Sganzerla. O bandido da luz acesa


Em 57 anos de vida, diretor de O Bandido da Luz Vermelha deixou uma incrível obra de 27 filmes. Atravessou todas as crises do cinema sem deixar de filmar um ano sequer, entre curtas, documentários e longas, além de vasto material crítico e esboços diversos

Na então pequena Joaçaba dos anos 1950, o terceiro dos cinco filhos do casal Albino e Zenaide Sganzerla contava seus sete anos de idade, e lançava ao mundo um livro de contos, escrito de próprio punho assim que aprendeu a ler. O pequeno Rogério havia nascido em 1946 e florescia ao mundo seu talento de produção intermitente que duraria as próximas cinco décadas.

Rogério Sganzerla estudou Direito na Universidade Mackenzie, já em São Paulo. Deixou o curso para escrever crítica de cinema. Seu trabalho era tão apreciado que encantou a musa do cinema novo Helena Ignez, então casada com Glauber Rocha, quando foi apresentada a Sganzerla e este lhe mostrou um artigo que escrevera sobre O Padre e a Moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1965) que tivera Ignez como protagonista. Alguns anos depois eles estavam casados. Reza que a “velha guarda” do Cinema Novo deitou ciúmes sobre o jovem catarinense, que logo em seguida estreou seu primeiro filme, Documentário (1967), uma imersão subjetiva acerca da linguagem da ficção e não ficção, da linha tênue que as separa. Um curta notável que colocou Sganzerla no estreito — e efervescente — cenário cinematográfico nacional.

No emblemático ano seguinte, Rogério premia o mundo com seu filme mais significativo. O Bandido da Luz Vermelha (1968) caiu como uma bomba dentro da seleta casa estética do cinema brasileiro. Até então, nenhum cineasta havia se arriscado com tanto arrojo na opressora linguagem da publicidade, da pop art, da então emergente crônica policial, televisiva e gráfica, de jornal. Tudo isso sem deixar o objeto principal do cinemanovismo: o oprimido. “Ele era como Glauber, só que urbano”, diria Helena Ignez anos depois.

A inveja de fato houve. Sganzerla foi preterido do envio de sua obra A Mulher de Todos ao Festival de Cannes de 1969. A barra pesou com a ditadura. Ele e Ignez foram viver em Londres, onde foi finalizado Copacabana Mon Amour, exibido em sessões lotadas para os cinéfilos britânicos. Dali percorreram França, Marrocos, Argélia, Tunísia, Nigéria, sem deixar de filmar um só único dia — Fora do Baralho é um documentário realizado nas areias do Saara, inacabado. A produção era constante e, especialmente hoje, soa muito impressionante. Paradoxalmente, até há poucos anos, esquecida.

Ainda no início dos anos 1970, o artista e a atriz juntaram-se a Júlio Bressane a fundaram a Belair, produtora que fincou os dois pés na nova produção. A proficuidade foi industrial e é nesta década que se concentra a maior e mais significativa parte da atividade audiovisual de ambos. Bressane já causara com o revolucionário Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) e tornou-se junto a Sganzerla o grande parceiro para as incursões estéticas às quais se afinavam e consistiam.

Autor de O Bandido da Luz Vermelha(1968), A Mulher de Todos (1969), Sem Essa, Aranha (1970), Copacabana Mon Amour (1970), Tudo É Brasil (1997) e O Signo do Caos (2003), entre outras, Sganzerla celebrou Jimi Hendrix e Noel Rosa, prestou tributo ao mestre Orson Welles, colocou as histórias em quadrinhos no jogo da linguagem cinematográfica e cultural, estreitou-se com todas as vertentes que brotaram depois, desde que tivessem como signo a liberdade de criação e a negação aos dogmas.

Seu grande sonho era a refilmagem de Luz Vermelha. Não deu tempo. Sganzerla faleceu em 2004, aos 57 anos. O projeto foi finalizado com direção de Helena Ignez, com Ney Matogrosso no papel principal, em Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2009).

Seu acervo foi restaurado e revisitado na exposição Ocupação Rogério Sganzerla, promovida pelo Itaú Cultural, em 2010. A Editora UFSC lançou no mesmo ano a caixa de livros Edifício Rogério – Textos Críticos 1 e 2, uma série de artigos e críticas cinematográficas publicadas pelo cineasta em jornais e revistas. Este ano, a SP Cine Play realizou a mostra Fique em Casa: Cinema Marginal de Rogério Sganzerla.

A chama de Rogério Sganzerla permanece acesa, e a fonte de inspiração que deixou parece cada vez mais inesgotável às gerações que se seguem. Um bandido de luz eterna, que permanece iluminando para além das escuras salas de cinema.

Ouça. Leia. Assista:

O Bandido da Luz Vermelha – Trailer

Mostra SpCine Fique em Casa: Cinema Marginal de Rogéiro Sganzerla

Edifício Rogério – Textos Críticos 1 e 2

História em Quadrinhos (curta, 1969) Filme completo.

Fotos: reprodução