Roqueiro velho é algo novo


Se olharmos bem, veremos que o rock ainda não tem idade pra gerar tanta controvérsia quanto à idade de seus fãs, que se não escaparam das garras de Cronos, são a novidade da última década

O rock surgiu, no pau da goiaba, no limite, como o conhecemos, em 1954. Um garoto branco do Tennessee, fanático pela música tocada na “zona proibida” de sua cidade, a então pacata Memphis, do outro lado do trilho de trem, resolve gravar um registro sonoro. Praticada pelos negros, a música que o garoto ouve é sinuosa, quente, sexy e envolvente.

Elvis Aaron Presley adentra as portas do estúdio Sun Records e sai de lá com um acetato, pelo qual pagou quatro dólares, emprestados de um amigo. My Happines do lado A, Thats When Heardaches Begin no lado B. Pouco depois, gravaria Thats all Right. E o mundo viraria de ponta cabeça.

Com toda controvérsia quanto à real origem daquilo que passou a ser chamado de rock’n roll, é fato que ele surgiu naquela década, pouco antes ou pouco depois. E conta hoje com 70 anos. Mais ou menos.

Símbolo máximo da fúria juvenil, sem dúvida seu maior representante, o rock deu o tom e embalou as gerações futuras. A primeiríssima geração de Elvis, Bill Halley, Bo Diddley, Chucky Berry, Little Richards, Buddy Holly deu vez aos cabeludos Beach Boys, Beatles, Stones, Kinks, The Who, Led Zeppelin e Black Sabbath. Desde então as “sucessões” são mais escassas, pois pouca gente largou o osso, vieram o punk e a new wave, depois a turma de Seattle e a new british invasion, e “aqueles” ficaram velhos. Nada mais natural.

Como é natural que muita gente fique impressionada com um fenômeno inevitável. Mesmo deuses como Mick Jagger e Paul McCartney já contam 80 anos. A geração que não confiava em ninguém que tinha mais de trinta anos, se vê com mais que o dobro da idade “limite” imposta pela velha máxima e continua embalando gente da mesma idade, ou mais nova, com os velhos três acordes.

Mais que isso, a gente fica impressionada com o fato de muitos daqueles jovens rebeldes de outrora serem donos de posições conservadoras de fazer corar seus avós. Não necessariamente imbecis do tipo Ted Nugent, que a bem da verdade sempre foi imbecil. Mas sujeitos como Morissey e Johnny Rotten, tomando posição política favorável a Donald Trump e anti-imigração. Mesmo caso de Eric Clapton (reincidente, o que a internet não nos deixa mentir, já tomara posições idiotas no auge, em meados dos 70’s).

Não se trata de nada demais, em verdade. O fato é que esse negócio de “roqueiro velho” é, na verdade, algo novo. Pode até não parecer, mas pela própria idade do rock como um todo, é natural que os primeiros “velhos” apareçam mais evidentemente agora, na última década. Apenas e tão somente pelo fato de antes disso o rock não ter idade pra isso. Ainda. Mas como diria outro roqueiro cearense todo desiludido, ainda nos 1970’s: “o novo sempre vem”.

Além do quê, posições conservadoras, se formos cutucar um pouco mais fundo, não são nenhuma novidade. Elvis foi ao exército. Muita gente credita o “fim do rock” a este advento. Voltou quase esquecido. Foi pra Las Vegas ganhar mais dinheiro que antes e de lá amargurava em seu quarto de hotel o costume de colecionar (e usar, na prática) armas. É famoso o episódio no qual o “rei do rock” atira em um televisor. Além do mais, foi abertamente a favor de Nixon e da intervenção americana no Vietnã.

Para além do rock, Jack Kerouac agonizava em questões semelhantes a Elvis, vivendo com sua mãe, defendendo a moral e abertamente republicano. Os Hell’s Angels todos sabem, uma gangue roqueira e racista. E a coisa toda do Southern rock e sua exposição de bandeiras confederadas, mais por folclore que por racismo, a bem da verdade. Mas os “velhos costumes” conservadores estavam todos ali.

Sujeitos como este que vos escreve, que detesta música eletrônica podem ser considerados conservadores. Que tal? Vá lá, tenho todos os álbuns do Kraftwerk e agitei muito Depeche Mode, Erasure e Human League. Não é bem assim. O problema sempre foi música ruim. Dane-se se ela é tocada por músicos ou “milhões de japoneses”, como aludiu a moça do Pato Fu certa feita.

O fato é que essa conversa de “roqueiro velho” é algo novo. Só saberemos a real de tudo isso quando o rock estiver realmente velho. Vá lá, quando em 2056 aquele disco do Elvis (o LP, não os compactozinhos de 4 doletas de 1953/54) completar um século.

Vamos deixar assim. Já que nada será como antes.

Ouça. Leia Assista:

Elvis Presley 1956

Imagens: reprodução