Telenovela é considerada a primeira incursão pelo gênero latino-americano na tevê. Personagens bizarros e a crítica social de Dias Gomes integravam a trama
Em meados dos anos 1970, Dias Gomes já era um mestre da dramaturgia brasileira. Havia visto sua peça O Pagador de Promessas ganhar as telas sob direção de Anselmo Duarte, em 1962, levando o único Leão de Ouro de melhor filme do Brasil em Cannes, até hoje.
Além de tudo, formava uma espécie de “casal 20” da teledramaturgia ao lado da esposa Janete Clair, certamente a autora de telenovelas mais popular e exitosa do Brasil. Suas incursões na tevê já eram de grande sucesso, tal e qual.
Em 1976, escreveu Saramandaia para o horário das 22 horas, na TV Globo. A história se passa no município fictício de Bole-Bole. Uma trama que tem início quando a cidade promove um plebiscito para mudança de nome, comandado por com duas facções: os “tradicionalistas” e os “mudancistas”.
A apuração dos votos dá vitória ao nome Saramandaia, em uma disputa apertada. Os tradicionalistas tentam impedir a mudança a qualquer custo, impetrando mandado de segurança para anular a votação, mas o resultado é mantido.
A partir de então, vários acontecimentos trágicos se sucedem, como a morte do filho do prefeito e a explosão de uma mulher gorda (a folclórica Dona Redonda). A população começa a passar por um processo de convencimento que visa culpar a troca do nome da cidade pela recente maré de azar. Os tradicionalistas se aproveitam da fé popular para tentar fazer com que Saramandaia volte a ser Bole-Bole.
Saramandaia ficou famosa por sua galeria de personagens. Seu Cazuza (Rafael de Carvalho) soltava o coração pela boca toda vez que se emocionava. João Gibão (Juca de Oliveira) tinha um par de asas, o qual tinha de aparar para evitar que crescesse. Zico Rosado (Castro Gonzaga) soltava formigas pelo nariz quando ficava nervoso. Dona Redonda (Wilza Carla) foi a mulher que explodiu de tanto comer. Marcina (Sônia Braga), quando excitada, queimava tudo ao redor. E — não podia faltar — o Professor Aristóbulo (Ary Fontoura), além de virar lobisomem, havia anos não dormia. Um elenco com bizarrices de fazer corar o professor Xavier e seus X-Men.
Muitos encontraram aproximações da novela de Gomes com o romance Cem Anos de Solidão (1967), do colombiano Gabriel García Márquez. Mas o próprio autor rejeitou a comparação e também o rótulo de “fantástico”. Declarou que não via tal semelhança, e que se baseara no cordel nordestino.
Não convence, por óbvio. Afinal, o cordel é a própria representação armorial do fantástico brasileiro. De caráter épico, de ancestralidade, poesia e folclore. Popular, vamos deixar assim.
Dias Gomes já usara personagens com ares pitorescos anteriormente. Um outro “gibão”, o Zelão das Asas, foi vivido por Milton Gonçalves em O Bem Amado (1973), por exemplo, ou o personagem de O Pagador de Promessas, que falava com um burro. Em Roque Santeiro (escrita em 1974, mas exibida em 1985-1986), também houve um lobisomem: Rui Rezende viveu o professor Astromar Junqueira.
Mesmo com a crítica social e política maquiada pelas pinceladas surrealistas da novela, Saramandaia sofreu com a patrulha do regime militar, que cortava cenas e diálogos em quase todos os capítulos.
Uma das sequências mais icônicas da história de nossa televisão é a citada explosão de Dona Redonda, que comeu demais. A direção providenciou um balão debaixo do vestido da personagem, que era inflado por uma dupla de auxiliares, escondidos da câmera. Para a explosão Wilza foi substituída por um balão do seu tamanho, vestido com suas roupas.
Ary Fontoura viveu em Saramandaia um de seus melhores personagens: o Professor Aristóbulo, um homem culto, mas sinistro, que não dormia há anos e que, em noites de lua cheia, virava lobisomem.
Impossível não associar a novela à música. Como era comum nos anos 1970, auge da gravadora da Globo, a Som Livre, a trilha sonora era de primeiríssima. Pavão Mysteriozo, do cantor cearense Ednardo fora gravada em 1974, no seu primeiro álbum. Dois anos depois, a canção foi escolhida para a abertura da novela das dez. Tornou-se seu maior sucesso até hoje. Ainda Capim Novo, com Luís Gonzaga, Canção da Meia-Noite, maior sucesso do grupo gaúcho Almôndegas (com os irmãos Kleiton e Kledir), Caso Você Case, interpretada por Marília Barbosa, e Xamego com Fafá de Belém. Sonzeira.
O folhetim eletrônico ficou no ar de maio a dezembro de 1976, em 160 capítulos. Foi dirigido por Walter Avancini, Gonzaga Blota e Roberto Talma. Teve participações inusitadas, como Francisco Cuoco vivendo Tiradentes, Tarcísio Meira encarnando dom Pedro I, e o lendário diretor Ziembinski representando o monsenhor Dagoberto, entre outros.
Mesmo em um horário que sempre foi considerado pela emissora como “experimental”, que nunca durou muito tempo em mais de uma temporada de experiências, Saramandaia alcançou audiência avassaladora, de 36 pontos do Ibope. Houve um remake não muito bem-sucedido em 2013.
García Marquez costumava dizer que, mais importante que apreciar o fantástico das histórias que ele e os emergentes latino-americanos apresentavam à época, era compreender a realidade que gerou aquela representação mágica.
Em escritores como Dias Gomes, mesmo dentro de uma simples telenovela, essa realidade salta aos olhos. No final, Gibão voa, ao som de Ednardo.
Era o que o Brasil precisava, e pedia.
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Ouça. Leia. Assista:
Saramandaia – abertura – 1976
Saramandaia – trilha sonora – álbum completo
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Imagens: reprodução