Seguindo as pistas

Criatividade,

Ando sentindo vontade de ler um livro que nunca havia despertado a minha curiosidade: Mulheres que Correm com os Lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem (1992). Talvez seja a questão do feminino aflorando em mim, talvez uma necessidade de descobrir e entender algumas origens, talvez apenas uma atração enorme pela nova edição do livro, que está lindíssima.

Mas alguma coisa me impede de apertar o botão de compra toda vez que faço a busca por ele. Não sei, talvez ainda não seja a hora. Ou talvez tenha algo mais aí.

E como boa curiosa que sou, comecei a ficar atenta ao livro, falar sobre ele com as pessoas, seguir em busca da próxima pista desta nova caça ao tesouro.

Um dia, conversando com a minha irmã, ela comentou que estava lendo este livro, mas que já tinha passado por dois outros da mesma autora, Clarissa Pinkola Estés, prazer.  A Ciranda das Mulheres Sábias(2009) e O Jardineiro que Tinha Fé (1996), bem mais curtos e fáceis de ler.

Opa, seria isso? Seria preciso começar com algo menos denso? Entender melhor a forma de escrita daquela mulher para depois mergulhar nas páginas complexas e profundas do best seller?

Hm, ainda não parecia isso. Segui atenta, segui para a próxima pista.

E resolvi buscar pela internet o nome da autora. Se havia mais dois livros dela, quem sabe não havia ainda mais?

Me deparei com uma capa em formato quadrado, diferente, colorida e apenas em inglês: The Creative Fire: Myths and Stories on the Cycles of Creativity (1993) – algo como O Fogo Criativo: Mitos e Histórias sobre os Ciclos da Criatividade, em tradução livre. Cliquei toda empolgada, mas só encontrei o livro em formato “CD de áudio” – logo eu, que não tenho nada de auditiva e tenho uma dificuldade enorme em me concentrar sem imagens em minha frente? Não era possível! Pensei que deveria haver a versão impressa em algum lugar, e eu haveria de encontrá-la.

Doce engano. Fui descobrindoque este “livro” só foi publicado no formato áudio e que, além deste, a autora tem pelo menos mais 22 “audio works”, trabalhos exclusivamente produzidos em áudio. Está de brincadeira comigo?!

Sofri, reclamei, pesquisei um pouco mais… mas em algum momento acabei aceitando. É, Clarissa, vamos embarcar nesta jornada de ouvir suas ideias, por que não?! Afinal, a caça ao tesouro não tinha sido assim tão simples para chegar até aqui. Eu jamais me permitiria desistir.

E que descoberta! Que mergulho (difícil, sim, porém) delicioso foi o desta escuta, quanto aprendizado!

Clarissa já começa o seu trabalho em áudio com uma frase que não vou esquecer jamais:

“The main struggle that people have with creativity is that they stop themselves from doing what comes naturally.” – Clarissa Pinkola Estés

Ou algo como o principal conflito que as pessoas enfrentam com a criatividade é que elas se impedem de fazer o que vem naturalmente, em tradução livre. Bum! Emoji com a cabeça explodindo.

É como se tivéssemos desaprendido a fazer aquilo que nos vem naturalmente. E numa busca incansável por procurar fora os caminhos que deveriam vir de dentro, fomos criando manuais e passo a passo para tudo. Ignorando o fato de que podemos “inventar as coisas mais brilhantes, mais eficientes, mais fascinantes, elucidativas, exclamativas, ovulatórias, a partir de nossas próprias mentes e corações” (em tradução livre).

E, com esta introdução, Clarissa começa a falar do tal Fogo Criativo.

A vontade que sinto é quase que de transcrever e traduzir todo o trabalho, mas acredito que precisaríamos de um pouco mais de tempo e espaço do que o deste momento que temos juntos aqui.

Então vou focar na história que ela conta da mitologia grega sobre duas deusas, Deméter e Perséfone. Este mito é mais bem conhecido por ser a explicação da criação das estações do ano, mas Clarissa o explora como a explicação dos Ciclos da Criatividade. E é lindo.

Deméter é conhecida como a Mãe Terra, a mãe fértil do potencial criativo, que nutre aquilo que ainda está por vir, por se tornar. Ela tem uma filha, Perséfone, que é uma adolescente inocente e que passa o dia inteiro brincando. Sim, este é o seu trabalho, brincar.

E a primeira relação do mito com a criatividade vem desta simples apresentação. Clarissa destaca que a criatividade não vem apenas da fertilidade, do potencial, do nutrir. Mas vem da combinação desta fertilidade com o brincar, com o jogar, o subir e descer e explorar e encontrar coisas que nunca foram pensadas antes.

O que acontece no mito é que este brincar inocente e despreocupado leva Perséfone a ser raptada do Olimpo para o mundo dos mortos. E o paraleloque Clarissa traça está no desafio que todos encontramos em algum momento da jornada criativa: as barreiras, os bloqueios. E de repente perdemos o fluxo, nosso eu que brinca não entra mais na brincadeira de criar. E nos sentimos perdidos, vazios, não conseguimos começar nada, ter ideias. Contra nossa vontade, ficamos paralisados. Apenas uma folha em branco a nossa frente…

Ao ouvir o grito de Perséfone e não conseguir encontrá-la, Deméter entra em desespero e sai do Olimpo em uma busca pelo mundo inteiro. Enquanto Deméter está à procura de sua filha, ela fica infértil, perde sua capacidade de nutrir, seca. E a terra também seca.

Mas o que está abaixo da terra é a fonte de tudo, da solução. Perséfone. O primeiro impulso criativo. Sem ela, a força criativa não pode criar.

Deméter procura por toda a terra, sem saber onde procurar, sem encontrar nenhuma pista de onde está sua filha, acabando consigo mesma. Procurando fora.

E este é o erro que cometemos também quando estamos criativamente paralisados. Procuramos fora. Achamos que precisamos comprar novos materiais e novos recursos para poder criar, mas não funciona. Achamos que precisamos limpar a casa, mudar tudo de lugar, pintar as paredes, mas continua não funcionando. Choramos no ombro de amigos e nada. Mas a resposta não está fora. Está dentro. Dentro de nós. Apenas inacessível, por hora.

A jornada que precisamos fazer para reencontrar nosso eu criativo, segundo Clarissa indica, é para dentro da nossa psique, procurando pela parte de nós que consegue viver sem direção habitual. E é essa jornada por si só que é fértil, que resgata a criatividade em nós.

E aí vem a parte mais linda da história, quando, em algum momento de sua busca, Deméter encontra a deusa da obscenidade feminina que dança para ela e, mesmo em sua dor, ela sorri e dá uma risada tão natural que abre a terra para que as sementes voltem a entrar. A dança e o riso despretensioso, não forçado, de nós mesmos, que nos permite mudar de humor, vem como solução para voltarmos a encontrar a nossa fertilidade.

Para Clarissa, a grande função do riso é nos mostrar que a solução nestes casos não tem nada a ver com a qualidade dos projetos em que estamos trabalhando ou com questões processuais, mas sim, com a emoção. E é a emoção que traz clareza a Deméter, que percebe que não sabe onde sua filha está, mas que pode encontrá-la.

Deméter então conversa com uma anciã, uma mulher sábia que transita entre o mundo externo e interno, fazendo a ponte entre eles. Conectando o que está fora e o que está dentro, o que está acima da terra e abaixo, o racional e o irracional. E o que essa anciã faz? Como todos os anciãos e sábios que conhecemos, ela faz a pergunta certa. E a pergunta deu pela primeira vez a Deméter a clareza necessária para enxergar a situação como ela é.

A dança e o riso tiram Deméter do estado de depressão criativa e a pergunta certa a leva a descobrir com clareza onde buscar a fonte da sua criatividade.

Pulando para o fim da história, Zeus ordena que Perséfone seja devolvida para sua mãe e que fique com ela para sempre. Porém, ele concorda que se ela tiver comido algo no submundo, terá que ficar ao menos parte do seu tempo lá. Persefóne não comeu, não dançou, não brincou no submundo. Mas no caminho de volta, seu raptor força uma romã aberta em sua boca e ela acaba por engolir, mesmo sem querer, seis sementes da fruta. E assim, Zeus ordena que ela fique metade do ano no submundo e metade do ano com sua mãe. Criando a noção das estações do ano; outono e inverno quando ela vai para o submundo, primavera e verão quando retorna para sua mãe. Criando também a noção de que o ciclo criativo inclui momentos de fluxo, abundante e fértil, e momentos de paralisia, de depressão criativa, de pausa.

E a grande mensagem final desta história de Clarissa é que “In case you did not know, everyone who creates, struggles to keep the flow clear”, ou simplesmente: todo mundo que cria não consegue se manter o fluxo o tempo todo. Ela reforça que a criatividade não é um evento singular, sem passado ou futuro, mas sim um ciclo, com períodos de início e aceleração, até começar a decair e entrar em incubação, em um período de pausa e espera, e então um renascimento e crescimento… e assim de volta e de volta, “over and over again”.

Agora entendo aquela coceirinha que o Mulheres que Correm com os Lobos gerou em mim! E sou muito grata. The Creative Fire foi, sim, uma das maiores descobertas deste 2020 maluco. Aprendi a respeitar meus momentos de pausa criativa. Aprendi sobre a jornada que preciso encarar quando estes momentos surgem, mas preciso continuar produzindo. Aprendi mais uma coisa sobre o ciclo criativo e espero que tenha podido compartilhar ao menos um pouco deste aprendizado contigo agora. Ah! Aprendi também sobre o feminino e sigo com vontade de ler o best seller. Quem sabe um dia…

E você, está seguindo as pistas que sua curiosidade te dá? O que aprendeu com elas?