Shazan, Xerife & Cia. De quando a psicodelia invadiu a televisão


Seriado exibido nos anos de 1970 era uma road trip de calhambeque, Brasil adentro. E trouxe cores em seu matiz preto-e-branco

Diria Luis Fernando Verissimo sobre a arte do audiovisual, “se a vida fosse como o cinema nos dizia, nunca faltaria bala nas nossas pistolas ou gelo no balde para o nosso uísque”. E na vida, na qual somos os únicos mocinhos de nossos “filmes”, em que tudo falta a tantos e a nós próprios, resta “produzir” sem parar. Cair na estrada e inventar, ou fazer de conta, que as contas atrasam de fato.

Dentro do enredo da novela O Primeiro Amor, exibida pela Rede Globo no horário das sete da noite em 1972, havia dois personagens que protagonizavam aquilo que hoje é chamado de “núcleo de humor” de uma trama. Eram os mecânicos Shazan (Paulo José) e Xerife (Flávio Migliaccio).

A dupla era atrapalhada, e ambos eram como que inventores. Criavam objetos estranhos, que eram transportados como badulaques dependurados por todas as partes de uma caminhonete cujo apelido era “Camicleta”. Um cruzamento de caminhão com bicicleta. O delírio dos dois era a saga constante em busca de uma “peça mágica” que os faria construir uma bicicleta voadora.

José e Migliaccio fizeram tanto sucesso que o autor da novela Walter Negrão resolveu criar uma série exclusiva para os mecânicos malucos. Assim surgiu Shazan, Xerife & Cia.

Bastante sugestiva em tempos de psicodelia, pé na estrada, e “maluquices”, os personagens (de arquétipo voltado ao público infantil) pareciam encarnar o espírito de uma época. A novela na qual surgiram se passava em Santa Catarina, na cidade de Nova Esperança. No seriado, a dupla era “beatnik” e ganhou as estradas do Brasil em busca da tal “peça”, uma clara alusão ao nirvana, ou às “coisas que faziam voar” aos hippies e jovens do momento. Uma juventude que abria a cabeça e rompia aos poucos com os padrões de tradição, família e propriedade.

Exibido entre outubro de 1972 e março de 1974, Shazan, Xerife & Cia. continuou sendo escrito por Negrão, com auxílio de Silvian Paezzo, Adriano Stuart e equipe. Foi dirigido ao longo das temporadas por João Loredo, Gonzaga Blota , Adriano Stuart, Reynaldo Boury e David Grimberg. A supervisão geral teve a batuta de Daniel Filho.

Inicialmente a série foi ao ar às quintas feiras, às 21 horas, em episódios de 30 minutos de duração. Sempre com uma história completa. A partir de 1973 passou a ser exibido de segunda a sexta, às 18 horas, com episódios que apresentavam continuação, durando às vezes vários capítulos, em torno de um mês em média. A estética era marcada por linguagem e elementos circenses. Mensagens edificantes e educativas eram transmitidas em todas as entradas.

A cada episódio, uma aventura diferente. Shazan e Xerife estavam sempre procurando emprego e arrumando confusões, enquanto seguiam as pistas da peça mágica que os faria decolar. Essa obsessão não vinha sem algum “apadrinhamento”, ou inspiração. A Camicleta era decorada entre todas as bugigangas com uma foto de Alberto Santos Dumont, o grande ídolo dos heróis trapalhões. O símbolo da invenção. Ou do sonho de o “homem voar”.

A televisão brasileira amadurecia aos poucos, e parecia chegar a sua idade adulta. Já havia, coisa de quatro anos antes, adentrado a experiência realista da linguagem da “gente como a gente”, em Beto Rockfeller (1968). É possível dizer que Shazan, Xerife e Cia. seja a primeira produção audiovisual com motivos psicodélicos feita no Brasil. Fez a alegria de crianças, mas também um imenso sucesso com adultos e em particular com os jovens do período.

Em 1998, Walther Negrão prestou homenagem a sua criação. No aniversário de 25 anos da série. Na novela Era uma Vez…, o autor fez surgir novamente os personagens, que chegaram a uma “nova” Nova Esperança inventada, a bordo da Camicleta. Para reproduzir o veículo, a Globo adaptou um Ford antigo.

“Shazam”, inicialmente com M no final, foi inspirado no grito proferido pelo Capitão Marvel, do gibi da DC Comics, que assim se transformava em um super-herói. Flávio Migliaccio e Paulo José, atores vindos do revolucionário Teatro de Arena, inventaram as próprias roupas dos personagens que protagonizaram.

É verdade. Sem meias palavras. Shazan, Xerife e Cia. foi hippie até a medula. Colorida apesar de exibida em p&b. Inteligente, divertida, viajante. Foi cinema dentro da tevê. E independente. Um gelo no uísque das lembranças mais tardias.

Ouça. Leia. Assista:

Shazan, Xerife & Cia. – Vinheta de abertura

Shazan, Xerife & Cia. – Livro de Saulo Adami

Imagens: reprodução