Telecatch à Curitibana


Telecatch foi um programa de televisão criado na extinta TV Excelsior, dedicado à exibição de combates de luta-livre que combinavam performance teatral, combate e circo. Mas, todos nós sabemos da natureza belicosa do curitibano, ainda mais do curitibano de classe e idade média que cresceu na sombra das políticas de higiene e do plano Agache, célula mater da ideia de cidade modelo de Jaime Lerner, esse curitibano é feroz e uma estranha figura essa, pálido ser com o espírito de um lutador de Telecatch.

 Nos cafés, teatros e bares vagam as figuras que podem ver além dessa redoma e as que não querem estar por fora dessa ideia propagandística, a eterna luta do Vampiro de Curitiba contra o Catatau cartesiano perdido nos trópicos. Em verdade digo isso, pois a dialética é o que move o mundo, o mocinho e o bandido, o violão quebrado por Sérgio Ricardo para que Edu Lobo cantasse “quem me dera agora ter a viola pra tocar”. Porém por aqui existem as pálidas figuras, pálidos socialistas, fãs da direita, fãs de uma política higienista e a fim apenas do discurso, existem essas pessoas que pensam e as que fazem, a voz ativa para mim, sempre esteve muito além da mente positiva, mas essa gente linda pensa que a verdadeira luta de classes se resume em bicicletas e hortas comunitárias no Bom Retiro.

Diz que em certa noite em bar badalado da cidade se juntaram em uma mesa o Barba Negra e o Barba Ruiva, a ideia era a paz, Barba Ruiva conhecido intelectual, professor e artista começou aos gritos a dizer que aquilo que não era ele não prestava, que o holocausto era uma brincadeira e que principalmente, aos amigos favores, aos outros a lei; o Barba Negra aos berros gritou que ele queria a justiça e a lei para todos, Barba Ruiva retrucou dizendo que Barba Negra atrapalhava todos os seus amigos, quando puxaram os talheres, cadeiras, socos, chutes, pontapés  e começaram a “luta-livre de classes”.

Figuras como o Barba Ruiva são o carisma da arrogância, o arroto de uma pseudo-erudição que a cidade que tenta ser modelo pensa que tem, a tradição do Jardim Ambiental, a loucura nos porões descolados que alternativamente, bajulam a globo e o Ipuc. Barba Negra é odiado pois está no diâmetro oposto de Barba Ruiva, porém, na raiz está um coração partido por uma elite imbecil que nunca quis nada para mudar o contexto dessa tradição, Barba Negra é a tradição, a tradição no sentido de transmissão e transferência.

Mas como diz o ditado, quem puxa os seus não degenera, todas as tardes infinitas do verão são a febre de uma cidade para um inverno ameno, afinal estamos na capital mais fria do Brasil (e não venham os porto alegrenses entrarem nessa briga porque temos mais gente também), porém uma coisa tenho que reconhecer que a Infinita Highway satisfaz mais meu coração do quê A Longa Estrada da Vida, afinal, na contramão do Sul, Curitiba enterrou suas raízes para imitar a América do Norte, e nada mais sintético para nossa cidade do quê uma valsa dos anos 70 sob uma estética mexicana, terminal Guadalupe e o Padre Pegador quem diga.

No dia 8 de dezembro de 1959, o subtenente António Tavares, da PM, comprou um pente do comerciante libanês Ahmed Najar, no valor de quinze cruzeiros, do qual exigiu o comprovante. Houve uma discussão entre eles, com o comerciante agredindo o policial e lhe fraturando uma das pernas, dando início ao conflito, conhecido como Guerra do Pente, nessa contenda cento e vinte lojas de árabes, judeus, italianos e brasileiros, mas todos conhecidos como “turcos”, foram depredadas. Algumas delas totalmente destruídas. Outro exemplo da belicosidade curitibana são os Atletibas, que ainda repercutem a briga de Maragatos e Chimangos nas torcidas únicas dos estádios, para mim, junto com o Grenal, a maior rivalidade do país, que remonta nas origens dos clubes, a maior guerra civil do país, a Revolução Federalista, conflito que se originou da crise política gerada pelos Federalistas, grupo opositor ao governo de Júlio de Castilhos, então presidente do Rio Grande do Sul, que buscava conquistar maior autonomia e descentralizar o poder da recém-instalada República. 

Quando eu era guri eu esperava atencioso na janela o dia da neve, confesso de ter acordado algumas vezes muito cedo só para fazer anjinhos na geada, foi aí que percebi que essa cidade é um eterno quase, que nenhum messias pode reencarnar aqui, a influência greco-romana na maquiagem dessa cidade faz -nos remeter a uma Tebas liberta de mitos, apenas com gente na rua vagando entre os carros e nas janelas, anêmicos paranóicos debruçando-se sobre uma moral televisiva e sempre escondendo suas escatologias na vida privada. O que poderia salvar a alma de todos seria a pureza do branco da neve, mas eles gostam de outro tipo de branco.

Curitiba precisa de festa, aquela chácara em Piraquara, aquelas festas em Piraquara, todo mundo festeja mais uma briga entre o Vampiro e o Catatau.