Dramaturgia de Samuel D. Hunter foca no bizarro para abordar questões humanas complexas como culpa, empatia e religiosidade
Um homem de 300 quilos “encalhado” em um sofá pode parecer a metáfora mais próxima daquilo que queria expressar o dramaturgo Samuel D. Hunter em sua peça The Whale (A Baleia). No entanto, o espetáculo que estreou no circuito off broadway em 2012 — e após imenso sucesso de público e crítica se transformou no aclamado filme dirigido por Darren Aronofsky — guarda muito mais em seu texto, repleto de referências.
No tal sofá imundo está sentado alguém que sofre de obesidade mórbida. Ele permanecerá lá durante grande parte das quase duas horas da peça (ou do filme, reprodução fiel ao texto, inclusive no cenário, praticamente sem externas, exceto uma discreta varanda). Uma imagem do corpo humano em sua forma mais grotesca, pelo menos de acordo com as convenções estabelecidas.
O tamanho da figura diante de nós, o cara chamado Charlie (Shuler Hensley na primeira montagem, Brendan Fraser no filme de 2022), que ministra aulas de redação online, não é necessariamente o aspecto mais perturbador. O que perturba é a respiração ofegante a cada tentativa de se expressar ou tentar algum movimento, mínimo que seja — buscando o celular por exemplo.
É um homem à beira da morte. E conforme a dramaturgia de Samuel Hunter se desenrola, fica cada vez mais evidente que Charlie está empenhado em sua autodestruição. E cada vez mais próximo de atingir seu objetivo. Mas há outros.
A trama é adereçada com alusões a Moby-Dick e à história bíblica de Jonas e a baleia. No filme, a referência maior é o livro de Herman Melville. Graças a um pequeno texto lido à exaustão, que Charlie acha “perfeito” e “bem escrito”, redação esta que faz referência ao famoso romance, como uma redação de escola, típica das que emprega a seus alunos online, para os quais Charlie nunca aparece, mantendo a câmera desligada, preservando-os de sua imagem assustadora de obesidade mórbida.
A referência tem tudo para ser encarada como uma tentativa forçada de adicionar atmosfera poética ao enredo da peça. Não se enganem, o cara arrebenta corações e mentes menos ajustados, como faz ver o desenrolar de tudo.
Os atores que interpretaram Charlie estiveram sufocados dentro do que pode ter sido alguns dos mais desconfortáveis vestuários já confeccionados para o teatro americano, visando a aparência gorda e desproporcional. Apesar de tudo, por mais que pareça impossível ante o que há de perturbador em sua doença, não passa despercebido a ninguém a mente ágil de Charlie e — sem pieguice, ou apenas na medida — seu enorme coração.
Vai aqui uma observação à citada redação que ornamenta a história, mas sem spoiler aos que vão ver o filme, ainda em cartaz. Se o capitão Ahab, personagem central de Moby Dick, nutre a obsessão por matar a baleia, e toma isso como elemento principal de sua vida, o combalido Charlie toma por meta salvar seu relacionamento com a filha Ellie, que abandonara na infância ao assumir um relacionamento homossexual com um aluno, alguns bons anos mais novo que ele.
A garota é irascível, estereótipo clássico de uma adolescente de 16 anos, que odeia tudo e todos. E também ao pai, por óbvio. Como Moby Dick a Ahab, ela sempre lhe escapa, mas ele não consegue deixá-la simplesmente ir, livre em um “oceano” que chove lá fora — em algum lugar no meio-oeste dos EUA por sinal, bem longe do mar.
Charlie acaba afogado na procura de resolver um mistério do seu passado, consertar alguma coisa e deixar-se entregue à morte que se aproxima, a partir de um diagnóstico de insuficiência cardíaca identificado por sua amiga e enfermeira Liz.
Liz é irmã de seu aluno/amante, que morreu de culpa dado a traumáticas relações religiosas e familiares. Alan (o namorado) padeceu anoréxico, num contraponto total a Charlie, que não consegue parar de comer, dando a impressão de que vai explodir como o personagem surrealista de Dias Gomes em Saramandaia (1976), a dona Redonda.
O primeiro “convidado” que adentra o apartamento de Charlie, dando início à ação dramática, é o missionário mórmon Elder Thomas. Um jovem animado que acaba por considerar Charlie um fiel em potencial, disposto a ouvir sua ladainha religiosa. Só que o amante de Charlie, Alan, também era mórmon. E tanto Charlie quanto a irmã Liz culpam a igreja por sua morte.
Em detrimento de sua fiel amiga Liz e do recém-chegado missionário Elder, o objetivo imediato de Charlie é a reconciliação com sua filha Ellie, a quem ele não vê há quase uma década após deixar a mãe dela, Mary. Charlie quer se reconectar com urgência, mas pode ser mais fácil para ele sair correndo saltitante do que criar um vínculo emocional que seja com a jovem. Ellie beira o gótico.
Se é possível apontar um deslize na dramaturgia de A Baleia, é que Hunter recorre a elementos cômicos sempre que há mulheres na cena. Um recurso pouco percebido, mas recorrente em dramaturgos homens. Torna Ellie uma caricatura de Wandinha Adams e sua ex Mary uma megera nada domada. Faz parte.
Liz também oscila. É sádica. Fica difícil acreditar que uma enfermeira profissional, por mais que amiga íntima do paciente — ou mesmo por isso — acabe se revezando em ser a pessoa que insiste para Charlie se internar no hospital e ao mesmo tempo seja sua maior “fornecedora” de sanduíches. Acaba soando perverso. Além de se referir a ele como “gay gordo e nojento” volta e meia. De toda forma (aqui remetendo ao filme) soa muitíssimo terna e poética a cena na qual ela lhe serve um generoso balde de frango frito — mais para um tender (ok, foi péssima).
The Whale — a peça — foi dirigida por Davis McCallum em sua primeira montagem. Não é um espetáculo moralizante sobre o problema da obesidade, é claro. Mas fica nítido o mar de entraves enfrentado por pessoas que desenvolveram obesidade mórbida. Quando da estreia em 2012, o crítico Charles Isherwood escreveu que “Charlie representa um homem com grande empatia pelos outros que de alguma forma não pode estender a mesma generosidade de espírito para si mesmo” (no New York Times).
Samuel D. Hunter nasceu em Moscow, Idaho, em 1981. Era até então mais conhecido pela sua peça A Bright New Boise (2010). The Whale é uma extraordinária quase-parábola, um quase-melodrama sobre um recluso de 300 quilos. Hunter surge como uma nova voz do teatro norte-americano, como não aparece desde Sam Sheppard.
O filme dirigido por Darren Aronofsky está cumprindo enorme agenda de sucesso, concorreu aos Óscares de Melhor Cabelo e Maquiagem e venceu o de Melhor Ator, em uma atuação memorável de Brendan Fraser.
Veja o filme. Se possível, leia o texto. Vão aparecer traduções por aí. Se aparecer uma nova montagem, confira.
Pesque você também.
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Ouça. Leia. Assista:
The Whale – a peça, cena. 2012
Playwrights Horizons – The Whale Retrospective
A Baleia (filme, 2022) – trailer
The Whale – texto da peça, em inglês
NYT – The Enormity of a Man’s Problems, and Vice Versa, by Charles Isherwood
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Imagens: reprodução