The United States of America. O início da revolução eletrônica


Grupo concebido por Joseph Byrd apresentou em disco pela primeira vez todos os elementos que viriam a caracterizar o eletropop. Álbum foi o único da banda, e não utilizou guitarras elétricas

Quem não admite a concepção de elementos eletrônicos na formatação da música moderna acaba pensando da mesma forma preconceituosa daqueles que nunca aceitaram as guitarras elétricas e hoje choram a ausência delas na música popular, repleta de teclados e efeitos. E em décadas passadas dançavam igualmente em muquifos escuros imersos em luzes negras.

Joseph Hunter Byrd Jr. nasceu em 1937 no Kentucky e cresceu em Tucson no Arizona. Sempre tocou em pequenos grupos regionais até conhecer o jazz e integrar alguns combinados, geralmente quartetos, até ir estudar música em Stanford, na Califórnia, completando assim o trajeto de milhares de jovens desde o final dos 1950’s, quando foi publicado On the Road, de Jack Kerouac. Em seguida, atraído pela vanguarda de Nova York, se tornou parte do movimento Fluxus e estudou com John Cage. Aquela coisa toda.

Retornou à costa oeste para estudar na UCLA, em Los Angeles, onde conheceu os músicos que o acompanhariam por toda a década. Em 1965, realizou uma série de shows com financiamento da universidade. As apresentações combinavam vanguarda, arte performática, música étnica e rock.

A inspiração surgida a partir desse movimento contínuo de vanguarda, aliado a toda atmosfera contracultural que já contaminava parte do planeta,  o levou a montar uma banda de estética pop.  Mais ou menos, pois estamos falando de Joe Byrd. E assim surge o grupo The United States of America, em 1967.

Em dezembro daquele ano fundamental para a música, a banda gravou seu primeiro e único disco, autointitulado. O álbum apresentava uma mistura de vanguarda, música coral, música eletrônica e rock psicodélico, combinados com letras de esquerda. Em contraste com a maioria das bandas de rock da época, eles usavam cordas, teclados, sintetizadores, efeitos eletrônicos e vários processadores de áudio, como o modulador de anel.

O nome da primeira faixa do disco, The American Metaphysical Circus, dá a perceber que este será um álbum único e estranho. É muito bem executado, repleto de elementos próprios e originais.  Mesmo que pareça ter sido feito em Júpiter. No entanto, considerando a mentalidade de que tudo era válido no final dos anos 1960’s, quando essa obra foi gravada (que muitas vezes incluía muitas drogas), é certo que não estava nada fora de lugar.

Mais um daqueles álbuns que acabou rotulado de psicodélico. É, também. Mas há algo mais em sua anatomia que dá para considerá-lo um precursor de todas as coisas progressivas  e eletrônicas que viriam. Era bem diferente de seus pares da chamada psicodelia da época — geralmente da Costa Oeste, mas não necessariamente — Jefferson Airplane, Grateful Dead, Quicksilver Messenger Service, The 13th Floor Elevators, The Eletric Prunes e outros menos votados que estouravam guitarras em reverbs nos amplificadores e metiam LSD pra dentro do cérebro.

Já em termos de experimentação, The United States of America estava mais perto dos Mutantes no Brasil que de seus conterrâneos mais ilustres — Frank Zappa à parte. Estavam também na vanguarda do “rock universitário”, emparelhados com os panfletários MC5 (lembrando que Byrd era um comunista de carteirinha) e influenciando no futuro descolados como Sonic Youth e Belle & Sebastian.

A banda que gravou o álbum foi formada por Joseph Byrd (efeitos eletrônicos, piano, órgão, caliope e sintetizadores), Dorothy Moskowitz (vocais principais), Gordon Marron (violino eléctrico e modulador de ondas), Rand Forbes (baixo) e Craig Woodson (bateria e percussão). Ed Bogas também foi creditado no disco, mas como músico ocasional, assim tocando órgão, piano e caliope, tornando-se membro oficial da banda na turnê, primeira e única.

O álbum é rock, mas sem guitarras elétricas. Violino elétrico é o mais próximo de uma guitarra em todo álbum. The United States of America (Columbia Records) foi lançado em 1968. É possível  dizer sem qualquer hesitação que é um álbum atemporal, e que pode ser considerado “fora da curva” em qualquer espaço de tempo que se queira. Realizado por um grupo de músicos que foi além.

Joseph Byrd foi o pai de uma banda de vida curta, mas que deu o start ao som eletrônico no universo pop. Logo após a turnê, o The United States of America se dissolveu. Byrd montou o Joe Byrd and the Field Hippies, com o qual gravou em 1969 o álbum The American Metaphysical Circus (nome daquela primeira faixa do disco). Depois de trabalhar como produtor musical, arranjador e compositor de trilhas sonoras, tornou-se professor universitário de História e Teoria da Música.

Revolucionário, The United States of America alcançou apenas a posição número 181 na Billboard 200. No entanto, está ali a parte mais enfática do desenvolvimento da música eletrônica registrada em disco. É claro que houve “de um tudo” antes e depois do grupo formado por Joe Byrd. Desde Pierre Schäffer, Stockhausen, Robert Moog e Herbert Deutsch, além dos contemporâneos alemães do Kraftwerk que já experimentavam desde o fim dos 1960’s. Mas nada daquilo era pop. The United States of America podia ter sido mais uma banda de blues-rock-psicodélico, e acabou sendo visionária e catalisadora.

Foi durante este período que Byrd se tornou membro do Partido Comunista, devido à sua agenda radical e disciplinada. Por isso, ele viu o nome da banda como uma declaração deliberadamente provocativa contra a agenda política dos Estados Unidos.

Acabou como um desagravo alternativo dos mais emblemáticos. Underground, cool e revolucionário.

Ouça. Leia. Assista:

The United States of America (1968) – álbum completo

J̤o̤e̤ B̤y̤r̤d̤ | T̤h̤e̤ A̤m̤e̤r̤i̤c̤a̤n̤ M̤e̤t̤a̤p̤h̤y̤s̤i̤c̤a̤l̤ C̤i̤r̤c̤ṳs̤ Full Album (1969)

Imagens: reprodução