Tom Ripley. Patricia Highsmith e o maior vigarista da literatura


Personagem atravessou décadas matando, falsificando identidades, roubando e vivendo como um playboy

Prepare-se para um universo de grandes trapaças e golpes perfeitos, ou quase. Prepare-se para não desgrudar da leitura, imerso em uma narrativa cativante e envolvente. Prepare-se para torcer para o vilão.

A norte-americana Patricia Highsmith é a criadora de um dos tipos mais marcantes de literatura policial e de suspense. Thomas Ripley, o famoso Tom Ripley — o “talentoso Ripley” que se transformou em personagem do cinema, tendo sido interpretado ao longo de décadas por nomes como Alain Delon, Denis Hopper, Matt Damon e John Malkovich. Ripley apareceu em uma série de cinco romances.

Highsmith já havia se consagrado como mestra do suspense policial com Strangers on a Train, de 1950, que ganhou versão no cinema através de Pacto Sinistro (1951), dirigido por Alfred Hitchcock. Sua adaptação mais conhecida.

Tom Ripley surge em 1955: O Talentoso Sr. Ripley. No Brasil, apenas O Talentoso Ripley. Ressurge somente em 1970, com Ripley Subterrâneo, seguido de O Jogo de Ripley, em 1974, O Garoto que Seguiu Ripley em 1980, e no  último romance da autora: Ripley Debaixo da Água, em 1991.

A atmosfera construída por Highsmith é impressionante, pois retrata um protagonista absolutamente sem escrúpulos, superando mesmo os personagens noir, tão tradicionais na literatura policial da primeira metade do século 20, que se transformou num gênero definitivo quando o assunto é a crime fiction.

Tom Ripley supera a tudo e todos, com falsificações, trapaças, estelionato, assassinatos. Com tudo isso, ainda consegue seduzir o público como seduz suas vítimas. Ao longo de mais de sessenta anos.

Este primeiro romance com o famoso vigarista é o que ganhou uma versão clássica, O Sol por Testemunha (Plein Soleil, 1960), adaptado e dirigido por René Clément, com Alain Delon no papel de Ripley. A obra foi revivida novamente em 1999 com direção de Anthony Minghella, e Matt Damon fazendo as vezes do trapaceiro.

O personagem é apresentado no romance como astuto e escorregadio. Tom reflete os gostos e afetações de qualquer pessoa que esteja com ele. Viveu lutando para ganhar a vida fazendo biscates, geralmente envolvendo algum tipo de golpe de baixo risco. Quando Tom conhece o milionário Herbert Greenleaf, ele mente sobre conhecer seu filho Dickie, desde Princeton (universidade), e ganha a confiança do homem. Dickie se afastara da família e vivia na Europa. Greenleaf incumbe Tom do trabalho mais estranho possível: viajar para a Itália para convencer Dickie a voltar para casa.

Depois de ser enviado à missão — resgatar um conhecido casual que fugiu para viver uma vida de luxo boêmio — Tom fica obcecado em fazer amizade real com Dickie. Acontece que a amiga (eventual pretendente, rejeitada) de Dickie, Marge Sherwood, sugere que as motivações de Tom são muito estranhas e perigosas.

Dickie se afasta do “amigo”, despertando uma espiral de ciúmes que leva Tom a assassinar Dickie e assumir sua identidade, utilizando-se de astúcia impressionante, que o faz permanecer um passo à frente da lei pelo restante do livro. Os dons de imitação e personificação de Tom levam-no a conter qualquer espécie de insegurança.

Órfão e criado por uma tia, Tom sempre se sentiu uma espécie de fardo para os outros e nunca se viu seguro em sua própria personalidade. Daí vem sua necessidade de se transformar em outro (no caso, Dickie), e assim de alguma forma sentir-se digno de aceitação e amor. Isso mostra que o ódio por si mesmo é uma de suas principais motivações.

Apesar de nunca explicitamente revelada, há uma potencial atmosfera de homossexualidade no sentimento demonstrado por Ripley a seus convivas masculinos. Algo que ele parece nunca ter aceitado em si próprio. Highsmith sugere que Tom possa ter matado Dickie como uma forma de amá-lo, já que o amor de fato ele não podia se permitir.

Nascido em uma família de classe média baixa no estado de Nova York, Tom teve que ser esperto desde muito novo. Ele sonhava com o dia em que poderia ter uma vida mais “fácil”. Era amante  das “coisas boas da vida”, como jazz, barcos à vela, escultura. Com o dinheiro dos Greenleaf em sua vida, Tom poderia enfim viver com estilo.

Enganador de talento, ele parece atraído pela aparência que criou a si próprio como um jovem rico e bon vivant. Manter essa imagem, porém, não será fácil. Por outro lado, ele sente que não tem alternativa: “Sempre pensei que seria melhor ser um falso alguém do que um verdadeiro ninguém”.

A jogada da narrativa empreendida por Highsmith aqui está no fato de Tom não poder se dar ao luxo de mostrar a ninguém seu verdadeiro eu, uma vez que está sempre mentindo sobre algo, e não raras vezes acaba encurralado por causa disso. Sempre que ataca, o faz de forma brutal. Vive  tentando se livrar da pessoa que já foi: “Você não pega o passado, coloca-o em um quarto no porão, tranca a porta e nunca mais entra lá? Isto é o que eu faço”.

Ripley seguiu aprontando por mais um bom tempo, em outras quatro obras, com outras vítimas e sempre vivendo muito bem — outras vidas.

Patrícia Highsmith nasceu Mary Patrícia Plangman, em 1921, em Fort Worth, no Texas. Mudou-se a Nova York com a família em 1927. Já uma jovem talentosa, através de recomendação de Truman Capote, foi aceita em uma espécie de residência artística na localidade de Yaddo, em 1948, onde trabalhou naquele seu primeiro e bem-sucedido romance, Strangers on a Train. Levou a maior parte da vida na França, na Inglaterra e na Suíça, onde faleceu em Locarno, em 1995, consagrada como dos grandes nomes da literatura norte-americana de seu tempo.

Deixa uma vasta obra de mais de 30 livros entre contos e romances. Fica aqui a lembrança de seu protagonista mais famoso. Recomenda-se ler a saga de Ripley em sequência, mas também não é obrigatório. Dá pra entender e curtir as histórias mesmo estando em um romance póstumo em relação a outro ainda não lido.

Não é difícil encontrar, há vasta oferta de seus livros por aí. E os filmes também.

Ler ainda é o melhor meio de não engolir qualquer falsificação.

Ouça. Leia. Assista:

O Talentoso Ripley – Estante Virtual

O Talentoso Ripley (1999) – filme trailer

O Sol por Testemunha (1960) – filme trailer

Imagens: reprodução