Um Senhor Brasil


Legado de Rolando Boldrin é imensurável. Vai com ele um país profundo, repleto de musicalidade, poesia, prosa e alegria

A cena é muito comum. No ar, o cheiro de um café passado em coador de pano, uma varanda na qual repousa solene um caboclo que dedilha sua viola — instrumento que lembra o violão, mas com dez cordas de aço — enquanto olha para um horizonte no qual nasce bem cedinho um sol que faz cor avermelhada, de uma beleza de dar aos olhos. O odor do café recém passado se mistura com o da terra molhada de chuva do dia anterior. O caboclo toma sua xícara e destila alguma melodia, pita um cigarro de palha, respira fundo esse ar de sabores, deixa a viola de lado e cata o cabo da enxada. Vai-se à roça, com um bodocó a tiracolo no qual leva a provisão para seu almoço no meio do dia duro de trabalho.

Há um mar de Brasil na cena descrita. Um Brasil profundo que ainda respira.  Graças a sujeitos que foram fundo na busca por essa vida, muitas vezes passada, que sabem ter vivido e trazem de lembrança. Sujeitos como Cornélio Pires, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo, Darcy Ribeiro, Inezita Barroso. Sujeitos como o ator Rolando Boldrin.

Parece nome artístico, mas Rolando Boldrin era de fato seu nome completo. Nasceu em 1936 em São Joaquim da Barra, pequena cidade do interior de São Paulo, na região de Franca, e perto uns 70km de Ribeirão Preto. Terra de fartura do mesmo café passado no pano que impregna a varanda do caboclo.

Sempre tocou a viola e o violão, desde muito novo. Cresceu no meio dos causos contados pelos habitantes daquele interior. No meio da década de 1950, Rolando Boldrin vai viver na capital São Paulo, já aspirando ser cantor e ator. Começa a trabalhar na extinta TV Tupi. Era galã, diziam, fosse causo ou não, de história contada.

Em mais de 60 anos de carreira na TV, boa parte na teledramaturgia, atuou em mais de de 30 novelas, como O Direito de Nascer; As Pupilas do Senhor Reitor, Os Deuses Estão Mortos; Quero Viver; Mulheres de Areia; Os Inocentes; A Viagem; O Profeta; Roda de Fogo; Cara a Cara; Cavalo Amarelo e Os Imigrantes. Até que cansou. E, como costumava ele mesmo dizer, começou a “tirar o Brasil da gaveta”.

Procurando reviver a mesma atmosfera descrita no primeiro parágrafo deste relato, criou e apresentou os programas Som Brasil na Rede Globo, entre 1981 e 1984. Depois Empório Brasileiro na TV Bandeirantes e Empório Brasil no SBT. Na TV Cultura, esteve à frente do Sr. Brasil desde 2005. Era simples: Boldrin, como estivesse sentado à varanda de uma casa caipira, adentrava cada edição do programa com um belo poema de inspiração rural, apresentava uma atração e outra, sempre com a identificação de origem do artista, onde nasceu, e depois entremeava a conversa com alguns causos, que interpretava com maestria. “sempre fui um ator, que por acaso canta e conta causos”, sempre fez questão de deixar claro.

É muito certo que Rolando Boldrin sabia de fato o que estava fazendo. A “gaveta” era grande demais. Não havia limites para o Brasil, este jovem senhor. E assim passaram-se quatro décadas, praticamente ininterruptas, do mais vasto e importante documento audiovisual de nossa música e cultura popular.

“O Brasil vai demorar para entender o que perdeu com a partida deste gênio. Uma demão enorme de tinta foi descascada dessa nossa parede”, declarou o escritor, jornalista e pesquisador de cultura popular Sandro Moser.

Boldrin era o sétimo filho de uma família de 12 irmãos. Gravou mais de 40 discos, compôs centenas de canções, interpretou outras centenas, um punhado de filmes, 30 novelas, e uma imensidão de programas de tevê. Foi realmente um “causo à parte”.

Rolando Boldrin deixou de viver na tarde do dia 9 de novembro de 2022, em São Paulo.

Foi Brasil pra mais de metro. Um senhor Brasil.

Ouça. Leia. Assista:

Rolando Boldrin – Caipira (1981) – álbum completo

Senhor Brasil – TV Cultura

Imagens: reprodução