Um templo do rock e seu banheiro podre


CBGB deixou de funcionar em 2006, mas sua importância segue reconhecida por todos os atores deste espetáculo que durou 33 anos

Imagine-se você um transeunte noturno lá por 1974, caminhando tranquilamente pela Bowery Street no Lower East Side em New York. Quando de repente você entra no número 315, onde parece haver música ao vivo, pelo aglomero defronte a fachada, em que um toldo arredondado apresenta a inscrição CBGB – OMFUG.

Você paga seus 5 dólares de entrada, pede uma bud e depois de ingerir os 300ml da garrafa long neck, resolve ir ao banheiro para se aliviar um pouco.  Lá você encontra o ambiente mais sujo que já imaginou na vida, e Dee Dee Ramone junto a Johnny Thunders puxando água da privada com uma seringa para dissolver em uma colher a heroína que Johnny acabou de trazer, com os 50 dólares que Dee Dee lhe dera, após arrecadar o dinheiro de um michê que acabara de fazer com uma bicha velha na esquina da 53 com a 3ª avenida. Eles se aplicam ali mesmo, enquanto você termina seu xixi, ao lado de um sujeito chamado Richard Hell, que usa uma estranha camiseta com a estampa “kill me please”.

Daí você retorna ao salão, onde uma loira chamada Debbie Harry está liderando um show com um som pop um tanto razoável, que você nem entende como uma banda daquelas está se apresentando num lugar de quinta categoria como aquele. Após a banda de Debbie, o grupo do mesmo Richard que mijava ao seu lado minutos antes adentra o palco para sua apresentação.

Há coisa de algumas semanas tem circulado na internet uma foto do banheiro do lendário bar nova-iorquino CBGB. Impressionante a podreira do pequeno cubículo, onde tanta “água” do rock mundial já rolou. O ambiente descrito acima foi a rotina de muitas pessoas de NY – mas também de todo o mundo – que por lá apareceram. Uma rotina levada a cabo ao longo de 33 anos. O clube com capacidade para 350 pessoas representou o surgimento do punk rock, da new wave e do pós punk, para a América e todo planeta.

Tudo isso se deve a um caipira da zona rural de New Jersey (apesar de nascido em NY) chamado Hilly Kristal. Após diversas empreitadas como gerente de casas noturnas e associado a produtores de shows, Kristal estava falido e resolve com um dinheiro que mal dispunha abrir um bar de música regional (CBGB são as iniciais de country, blue-grass and blues, e OMFUG – other music for uplifting gormandizers, algo como “outras músicas para fazer suar os gulosos”, em tradução livre), em 1973. Este endereço alugado no térreo da 315 Bowery lhe pareceu o ideal para a empreitada.

Quando começou a recrutar músicos para tocar no local, a primeira banda que surgiu foi um bando de punks que se auto-intitulava Television. A contragosto, mas com a sensação de que “havia algo ali”, o já experiente Hilly deu-lhes uma chance. Um séquito começou a seguir para o local, que contava com as mazelas já conhecidas e ainda um cozinheiro chamado Harold que servia um chilli pra lá de suspeito, o “prato da casa”.  O resto é história: involuntariamente, Hilly Kristal mudou os rumos da indústria da música mundial.

Ramones, Dead Boys, Patti Smith, Talking Heads, Blondie, Sex Pistols, The Police, Iggy Pop, praticamente não houve quem não tocasse no CBGB. Essa história pode ser conferida em duas obras que melhor retratam o espírito de toda trajetória desse templo do rock’n roll: o livro Mate-me Por Favor (Legs McNeil e Gilliam McCain, 1996) e o filme CBGB (Randall Miller, 2013).

O livro foi concebido por uma testemunha ocular de tudo que lá aconteceu. McNeil fora editor da revista Punk (de onde nomearam o gênero ainda em 1973), e sua parceira Giliam McCain é uma reconhecida poeta canadense, estudiosa do fenômeno poético punk, a partir da igreja St. Michael, onde Patti Smith promovia recitais a poucas quadras do CBGB. Trata-se de um apanhado de entrevistas com todos os personagens que por lá passaram. Desde os já citados até Lou Reed. Leitura fundamental para o entendimento do punk e seus desdobramentos a partir de NY.

O filme de Randall Miller não escorrega. Em duas horas consegue retratar o espírito de todo um tempo. Os personagens são interpretados a caráter. Com maestria, se apanha naturalmente em uma atmosfera de comédia. Não poderia deixar de ser. As trapalhadas de Kristal, sempre socorrido pela austera filha em seus apuros financeiros e operacionais, acabam por matar (por favor) de rir.

Os jornalistas que escreveram o livro citado também constam da trama. É bacana assistir à dramatização de momentos históricos como o inusitado teste do Television, a primeira e atribulada apresentação dos Ramones, em que os integrantes brigam durante todos os 12 minutos do show, tendo que repetir seu repertório, muito curto. E a ironia na cena em que David Byrne apresenta seu grupo: “nós somos os vizinhos do segundo andar do edifício em frente, e o nome dessa banda é Talking Heads”, que daria nome a um disco ao vivo do incipiente grupo no futuro: The Name of This Band is Talking Heads (1982).

Tudo isso mais o banheiro podre e as confusões que lá ocorriam. Tudo real. Como aconteceu.

Hilly Kristal fechou o bar em 2006. Morreu em 2007, aos 75 anos. Na 315 Bowery hoje funciona uma loja de roupas do estilista John Varvatos, com motivos rock. Mas isso não tem nada a ver.

Leia. Ouça. Assista:

CBGB – o filme (2013)trailer

Mate-me Por Favor (livro, 1996)

 

Fotos: reprodução