Uma revista animal


Nunca houve nada parecido nas publicações de quadrinhos no Brasil. Uma verdadeira antena para o resto do mundo, com edições sofisticadas e conteúdo inédito até então

Pela segunda metade dos anos 1980 os quadrinhos no Brasil ganharam finalmente o status de obra de arte, não apenas dirigido ao público infanto-juvenil, mas também para jovens e adultos.

A mudança se deu paulatinamente, por óbvio. Mas é inegável e ponto pacífico que o surgimento de O Cavaleiro das Trevas, por Frank Miller, foi o dispositivo que fez explodir o gênero como algo a ser levado a sério, e chamado de “a nona arte”.

Se já tínhamos nas bancas esporádicas publicações underground, depois a Chiclete com Banana e a Circo (assuntos para outra resenha), com foco no humor, ainda faltava uma edição periódica com tratamento gráfico e o luxo que a banda desenhada nacional ainda desconhecia. Aí entra em cena uma pequena editora.

A VHD Difusion era desconhecida do grande público. Publicava o épico medieval Thorgal e um faroeste menos concorrido chamado Durango. Até que o editor do folclórico e antológico fanzine Almeida (da Eca-USP) e vocalista da banda Crime Rogério de Campos, junto ao cartunista e arquiteto Newton Foot e o quadrinista e ilustrador Fabio Zimbres convencem a VHD a uma empreitada que mudaria os rumos das edições de quadrinhos do Brasil.

No começo de 1988 chega às bancas a revista Animal número 1. Mais precisamente: Animal – Feio Forte e Formal. Não devia nada às revistas internacionais europeias e americanas que lhe serviram de modelo, como Heavy Metal, El Víbora ou (principalmente) a mitológica italiana Frigidaire.

Papel couché de alta gramatura para as páginas coloridas. As historietas em preto & branco vinham em off-set. E o fanzine Mau (Feio Sujo e Malvado) que vinha encartado, recebeu papel jornal. Um achado. Um luxo. E com preço de banca.

O conteúdo era o que mais interessava. Foi nas páginas da Animal que leitores brasileiros tomaram contato pela primeira vez com Ranxerox (capa da primeira edição) de Stefano Tamburini e Tanino Liberatore; Zanardi, de Andrea Pazienza; Torpedo, de Enrique Abulí e Jordi Bernet; e as incríveis e revolucionárias Locas, dos irmãos Gilbert e Jaime Hernandez. Só pra citar os mais populares. Havia também Mattioli, Vuillemin, Segura, Martin, Max, e muito, muitíssimos outros.

O fanzine que vinha encartado em papel jornal no interior da Animal era um caso (sério) à parte. Terrorismo, violência desmedida, rock alternativo, divulgação de outros fanzines, sexo (com pedofilia), nada escapava ao encarte “Feio Sujo e Malvado”.

Há um número no qual você pode aprender a montar uma bomba caseira. Outro que sugere (incentiva) a libertar animais do zoológico. Números especiais com, por exemplo: um manual de guerrilha urbana nos moldes de um Marighela punk, ou um guia de suicídio com maior eficiência para o ato de tirar a própria vida.

No quesito sexo o Mau não perdoava nada nem ninguém: bandagem, tortura, sadomasoquismo, escatologia e tudo que possa ser imaginado. Outro: um verdadeiro sommelier de como conseguir drogas mais baratas em diversas grandes cidades do mundo, além de dicas quanto à qualidade da melhor maconha, pureza da cocaína, dicas de como aplicar melhor heroína, o uso correto da seringa, entre outras ótimas e edificantes utilidades públicas.

A revista durou 22 números em quatro anos. Foi derrubada pelo plano mirabolante e a consequente política econômica do governo Collor, com a 23ª edição já na gráfica (nunca impressa). Rogério de Campos fundou a editora Conrad e hoje preside a Veneta. Fabio Zimbres e Newton Foot seguiram bem-sucedidas  carreiras como desenhistas.

Ainda foram às bancas edições especiais nominadas Grandes Aventuras Animal e Coleção Animal, com histórias exclusivas de Ranxerox, Torpedo, Triton, Bionda, Edmundo, entre outros.

Era preciso ser muito adulto para encarar a revista Animal. Jovens imberbes que hoje estão entre seus 40 e 60 anos. Sobrevivemos. Foi um prazer.

Leia. Ouça. Assista:

Revista Animal – completa – download pdf

Animal – Coleção completa

Imagens: reprodução