Obra prima de Alan Moore e Dave Gibbons foi profética em vários sentidos para além da América de Reagan, quando foi escrita. A graphic novel parecia prever toda intolerância da segunda década do século seguinte
Quem nunca teve um dia de fúria e imaginou sair pelas ruas com uma arma na mão detonando tudo que lhe parecesse um estorvo para a humanidade ou para si próprio? Feito o personagem interpretado por Michael Douglas em Um Dia de Fúria (Joel Schumacher, 1993), ou o Charles Bronson de Desejo de Matar (Michael Winner, 1974), é muito provável que todo mundo, se pudesse, já teria feito justiça com as próprias mãos.
A história em quadrinhos Watchmen (1986), escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons é considerada por muitos a melhor do gênero em todos os tempos. Concorre com o Cavaleiro das Trevas (Frank Miller,1986), que reconta de forma gótica a história do Batman. A partir dessas obras, os comics passaram a ser chamados de graphic novels (romances gráficos). Os gibis de super-heróis foram elevados enfim à categoria de arte.
O enredo apresenta a distopia de um mundo em que Nixon ainda é presidente dos EUA, que por sua vez venceram o conflito no Vietnã, que tem a energia elétrica como combustível automotivo, e que desde os anos de 1930, conta com justiceiros mascarados a combater o crime pelas ruas das grandes cidades. A história se passa em 1985, e encontra esse grupo de veteranos em crise existencial, proibidos de atuar por uma lei que data de 1977. A maioria decadentes, em idade relativamente avançada, e tocando suas vidinhas. A história começa com o assassinato de um dos mais representativos “heróis” do período áureo dos Minutemen (alcunha concebida quando os justiceiros se tornam um grupo nos anos 1940), o Comediante é morto a tiros dentro de casa. Um dos personagens mais perturbados da antiga trupe de mascarados, Rorschach enlouquece e enxerga na morte do antigo parceiro, entre outros acasos, uma conspiração para eliminar os Minutemen da face da terra.
A história vai revelando o caráter reacionário de quase todos os personagens, o ódio embutido em cada um, suas origens e perturbações, seus traumas e poucas aspirações. Nenhum deles têm superpoderes, como costumamos ver nas comics tradicionais. Apenas um, Dr. Manhattan, é fruto de um acidente nuclear, como não poderia deixar de ser, e é responsável direto pela vitória dos EUA no Vietnã, dentro do universo distópico da série, publicada em fascículos entre 1986 e 87.
Xenofobia, nacionalismo, fascismo, nazismo, racismo, homofobia, preconceitos de toda sorte formam a colcha de retalhos das personalidades reinantes na trama. Alan Moore foi alçado à categoria de gênio desde Watchmen. É de fato um revolucionário da estética dos quadrinhos, mas vai além, sendo considerado um pensador da sociedade como um todo, e autor de livros diversos. Não há como não relacionarmos sua maior obra com o mundo em que vivemos hoje. Um mundo que gerou Trump, Bolsonaro, Órban, entre outros líderes mundiais. Um mundo em que ser ignorante parece bonito. A miríade de ultra-direitismo gratuito que vimos emergir desde o começo do novo século e que agora assume postos importantes em todos os setores em países e organizações.
Watchmen ganhou um filme, depois de muita negociação e espera, em 2009. Contestada, a obra com 2h40min ganhou elogios e críticas. É muito fácil entender quando lemos enfim a obra original. Quase impossível uma transposição para as telas em formato longa-metragem com a profundidade necessária. A partir de 2019, criou-se uma série televisiva, com acontecimentos narrados 35 anos depois dos vividos na graphic novel.
A DC Comics (Panini Books no Brasil) lançou a obra completa em edição capa dura em 2011. Antes de assistir ao filme ou as séries se faz necessário a leitura do original, evitando a falha na compreensão da história, repleta de complexidades. Vale também ouvir as canções indicadas ao longo dos capítulos.
Antes de tudo, evite sair por aí fantasiado e matando, ferindo ou prendendo quem você não gosta. Isso não é trabalho pra você.
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Ouça, leia assista:
Watchmen – Edição Definitiva (DC Comics – Panini Books, 2011)
Watchmen – O Filme (Zack Snyder, 2009)
Watchmen – a Série (Warner Bros. Television, 2019)
Mago das Palavras – A Vida Extraordinária de Alan Moore (Lance Parkin, 2016)
The Comedians – Elvis Costelo (Good Bye Cruel World, 1984)