Escritor expoente da beat generation ficou conhecido por seus relatos surpreendentes e não lineares sobre o uso de drogas, em narrativas repletas de experimentação
Quando o personagem padre Tom Murphy aparece no filme Drugstore Cowboy (Gus Van Sant, 1989) muita gente se surpreendeu com a interpretação de William Burroughs. O padre, para além de sua ordenança católica, é um verdadeiro sacerdote do vício.
Padre Tom sabe tudo, e exerce algo como uma espécie de “pajelança” voltada ao uso de drogas a seus “carolas”. Fornece, ensina, receita e aconselha os jovens junkies do filme — um bando que assalta farmácias pelo noroeste dos EUA, notadamente o Oregon. Sacada genial de Gus Van Sant, pois tal personagem não poderia de fato ser interpretado por ninguém mais apropriado.
Burroughs é personagem também em si próprio. Uma das figuras fundadoras do movimento beatnik. Viciado desde sempre, ele criou livros como Junky e Naked Lunch, que acabaram por se tornar libelos de visão angustiante e muitas vezes grotesca acerca da cultura das drogas. Ele é frequentemente citado como uma grande influência para figuras da contracultura no mundo da música e, para além dos livros e ensaios, trabalhou em diversos projetos de discos e filmes.
Nascido em 5 de fevereiro de 1914 em St. Louis, Missouri, William Seward Burroughs é filho de Laura Lee e Mortimer Burroughs. Recebeu o nome de seu avô, o famoso inventor pioneiro na tecnologia de máquinas de calcular. As calculadoras Burroughs.
Burroughs frequentou escolas preparatórias e mais tarde estudou literatura inglesa na Universidade de Harvard, onde se formou em 1936. Viajou para a Europa; conheceu e se casou com Ilse Klapper com o propósito de permitir sua entrada nos Estados Unidos. Os dois acabaram com o casamento assim que adentraram o país.
Tentando diferentes carreiras sem sucesso, Burroughs finalmente viajou para Nova York e conheceu os escritores Allen Ginsberg e Jack Kerouac em meados da década de 1940. Estava formada a “santíssima trindade” do ideário beatnik. Os três seriam anunciados como iniciadores do movimento, uma espécie de manifestação artística de expressão livre e não tradicional. A América começava a virar de ponta-cabeça.
Os caras não eram fáceis. Há histórias de deixar qualquer um de cabelo em pé. Em meados da mesma década, Burroughs e Kerouac colaboraram em um romance sobre o assassinato de um amigo, E os Hipopótamos Foram Fervidos em Seus Tanques, que só seria publicado décadas depois. Burroughs começou a vender drogas nas estações de metrô. Também desenvolveu um relacionamento com Joan Vollmer durante o período, e eles viveriam juntos como marido e mulher a partir de 1945. Burroughs também nunca escondeu da esposa sua atração por homens — ele e Ginsberg eram amantes eventuais.
Burroughs começou a usar opiáceos e caiu no vício em heroína. Ele também era um entusiasta de armas e, enquanto morava com sua família na Cidade do México em 1951, jogou um jogo de tiro ao alvo bêbado — feito Guilherme Tell, só que com rifle — com Vollmer e acidentalmente a matou com um tiro. Ele não recebeu grande pena de prisão, mas lutaria contra seus demônios durante anos devido a tamanha insanidade brutal.
Publicou seu primeiro romance, Junky, em 1953, assinando como William Lee. O trabalho apresenta um olhar inabalável e semiautobiográfico sobre o uso de drogas, que pode ser chamado de “trash”. Ele continuou a viajar e acabou em Tânger, no Marrocos, exausto e sem recursos financeiros. Percebeu que morreria se não mudasse seu caminho, e então viajou para Londres para receber tratamentos com apomorfina, que ele credita como a cura de seu vício.
Com a ajuda de Ginsberg e Kerouac, Burroughs escreveu o romance Naked Lunch in Tangiers, que continuou a acompanhar as façanhas de William Lee em uma perturbadora jornada pelo vício. O livro apresentava formas narrativas não lineares com elementos de sadomasoquismo, metamorfoses e sátira. Publicado em 1959, o livro só seria lançado nos Estados Unidos na década de 1960 devido a uma proibição governamental, o que colocou Burroughs no centro das atenções. Ele se tornou uma figura aclamada e ao mesmo tempo rejeitada.
Na época do lançamento de Naked Lunch, inspirado no artista Brion Gysin, Burroughs começou a experimentar a técnica cut-up, onde linhas aleatórias de texto eram cortadas de uma página e reorganizadas para formar novas frases, com a intenção de libertar a mente do leitor do convencional e de modos lineares de pensamento. Usando essa técnica com elementos de sátira e ficção científica, a década de 1960 viu Burroughs lançar romances como The Soft Machine (1961) e Nova Express (1964), que acusavam sob forte abordagem o consumismo e a repressão social, e a obra de não-ficção The Yage Letters (1963).
Burroughs também gravou áudios que se tornaram elepês. Ele lançou seu primeiro álbum em 1965, Call Me Burroughs, que apresentava suas leituras de textos de Naked Lunch e The Soft Machine. O performático escritor não apenas causou impacto no mundo literário, mas também se tornou uma enorme influência para muitos artistas musicais da época. Bandas como Soft Machine e Steely Dan conceberam seus nomes inspiradas no trabalho do escritor. Burroughs passou a colaborar com artistas de vanguarda como Laurie Anderson e Sonic Youth.
Continuou suas atividades literárias no início dos anos 1970, publicando The Wild Boys: A Book of the Dead (1971) e Exterminator! (1973) e escrevendo um roteiro, As últimas palavras de Dutch Schulz. No final da década, ele trabalhou em um livro com Brion Gysin que aprofundou a “filosofia” do cut-up – The Third Mind (1978).
O escritor enfrentaria uma tragédia familiar mais uma vez, quando seu filho Billy Burroughs Jr., que também escrevia, sucumbiu ao vício em substâncias tóxicas, e morreu de problemas com o álcool em 1981.
Os livros de William Burroughs apareceram no Brasil a partir da onda iniciada pela editora Brasiliense, no início dos anos 1980. Na esteira de Pé na Estrada (On the Road) de Kerouac, logo em seguida vieram os títulos de Burroughs Junky e Almoço Nu (Naked Lunch), dentre outros do autor, um verdadeiro sacerdote quando o assunto é uso de drogas.
No fim das contas ele é, sem dúvida, apesar de tudo, o mais erudito dos beatniks.
Burroughs morreu em Lawrence, Kansas, em 1997, pouco depois de aparecer em um clipe do U2.
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Ouça. Leia. Assista:
Livros de William S. Burroughs – Estante Virtual
Drugstore Cowboy (1989) – Trailer
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