Muitas vezes o yoga é vendido na mídia com imagens de pessoas jovens, saudáveis, com corpos esculturais que tomam suco verde, separam o lixo e surfam. Outras vezes parece pertencer a um grupo específico de pessoas que cantam mantras em roda, sentados no chão de olhos fechando se balançando de um lado para o outro. Muitas vezes parece existir um dress code para praticar yoga, um tipo de cabelo (ou careca), um tipo de barba, de calça legging ou tapetinho especial. Claro que esses grupos também praticam e podem praticar yoga e terão seus benefícios dessa atividade, mas é preciso que fique claro que a prática de yoga deveria se adaptar a todos esses e a todos os outros, um a um, não ser um pacote de atividades no qual a pessoa compra um serviço, desfruta daquilo que a levou de encontro a o que procura e tolera os excedentes, a perfumaria.
Praticar yoga é, e deve ser cada vez mais uma atividade para o trabalhador de escritório, para estudantes, professores, artistas, profissionais liberais, empresários, sindicalistas, comerciantes, pais, mães, héteros, gays, lésbicas, negros, indígenas, orientais, crianças, jovens, idosos, religiosos, ateus, magros, gordos, portadores de alguma necessidade especial, pessoas saudáveis, doentes e toda a diversidade humana imaginável.
Yoga é inclusivo, não excludente, yoga acolhe, não afasta. É assim e isso deve ser entendido cada vez mais (inclusive pela comunidade de professores) pois yoga trata da condição humana, trata da vida, das nossas angústias, da nossa relação com o outro e com o meio e como podemos viver melhor, termos uma condição de maior liberdade sobre nós mesmos e por fim, sermos mais felizes, e isso todos queremos, independentemente de qualquer condicionante externo.
Desikachar, o professor do meu professor dizia que “Yoga é relacionamento”. Ao dizer isso, ele deixava claro que yoga é um caminho para melhorarmos a forma como nos relacionamos com nossos próprios sentimentos e pensamentos, com nosso corpo, com as pessoas ao nosso redor e com o mundo de forma ampla e abrangente. Praticar yoga de forma sincera e com a devida orientação é ir muito além daquelas posturas complicadas ou de ficar sentado de pernas cruzadas cantando om. Não que isso não tenha sua aplicação, tem, claro, mas yoga não se resume a isso. Se praticamos as posturas, seja em qual nível de dificuldade, elas devem servir para criar mais saúde, força e flexibilidade, mas principalmente para que aprendamos a nos relacionar melhor com nosso próprio corpo. Se praticamos técnicas de respiração, concentração e meditação, essas técnicas devem nos levar a nos relacionarmos melhor com nossas emoções, sentimentos, pensamentos e ideologias. A partir de um melhor relacionamento com nós mesmos, com tudo aquilo que forma o que somos, podemos melhorar um pouco a forma como nos relacionamos com o mundo. Então o yoga que muitas vezes começa em um sala sentado sobre um tapetinho passa a fazer parte de nossa vida, pois de fato, yoga é sobre a vida.
Portanto, quando dizemos que yoga é uma filosofia de vida não estamos falando de superficialidades como separar o lixo, tomar sucos detox, se tornar vegetariano ou acordar com as galinhas. Estamos falando em nos tornarmos agentes transformadores da sociedade, cada um a seu modo mas sempre de forma a levar mais compaixão, tolerância e amizade aos outros. Isso sim é yoga na vida e isso só pode acontecer se o professor estiver disposto a enxergar cada aluno como um ser único, aberto a diversidade do mundo.
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